Disseram que escrever é fácil, que é só pensar e escrever. Bem, talvez fácil não seja a palavra, mas pelo menos é barato: está ali o teclado olhando pra mim, enquanto penso nas palavras que quero escrever. Não precisa de mais nada, a não ser o batucar suave dos dedos nas teclas.
Todo texto precisa de um tema, de preferência bem legal e motivador, sabe? Daqueles que prende o leitor e faz você se sentir bacanão. Mas o tema me foge...
As formigas fizeram novamente um trilheiro em cima da mesa. Não acredito! Eu limpei a mesa depois do café... Saco! Não entendo isso. Olha! Olha isso! Elas se dão ao trabalho de subir pelo pé da mesa, contornar a borda do tampo, chegar à parte superior, ir juntinhas até o centro e se espalharem para todos os lados procurando comida. Tem duas delas em cima do notebook: uma na tela e outra no teclado!
“Filha... NÃO tem comida no meu notebook!” pensei enquanto assoprava as formigas para longe.
Onde eu estava mesmo? Ahh... sim, no tema. Então...
Um tema bom, tem que ser um tema bom. Batalhas, mulheres, fogo e heroísmo? Dores, compulsões, fome e desgraça? Amores indizíveis, paixões, aventuras e devaneios? O Cotidiano? Deve haver algo de bom para se aproveitar no meio dessa confusão, não?... Com um lampejo, um sorriso e uma ideia voltei a olhar a tela e iniciei a fila de palavras que seguiam o pequeno cursor piscante do editor de textos...
A fila minúscula se moveu no canto de meu olhar, em cima do tampo da mesa. Não é possível! Piscando nervosamente os olhos voltei a me concentrar nas palavras escritas na tela e digitei rapidamente para não perder a ideia. Vai, vai, vai!... Riscos, perninhas, antenas, tampos de mesas, comida espalhada: trilheiros de formigas. Olhei nervosamente para aquilo se movendo em volta do notebook e senti como se estivesse se movendo dentro da minha cabeça! Tem uma delas em cima do meu braço!
Fechei os olhos com força e pensei na injustiça da situação, tentando esquecer aquilo tudo... mas senti a formiguinha caminhando no meu braço. Senti suas patinhas perambulando na minha pele e, de forma irresistível, imaginei como seria se centenas delas subissem pela mão, congelada em cima do teclado. Senti a força criativa me abandonando...
Deu pra imaginar direitinho: aquela linha de formigas, subindo pela mão esquerda, milhares de patinhas a caminhar, braço acima em direção ao ombro. Uma linha contínua, daquelas que fariam um escritor sentir inveja, tal a coesão de ideias, a força do movimento e harmonia de comunicação. Deu pra senti-las subindo pelo pescoço e entrando em meu ouvido esquerdo, marchando ordenadamente, atraídas pelo cheiro e sabor de palavras errantes e vistosas no interior de minha cabeça. Deu pra vê-las saindo pelo ouvido direito, cada uma delas, minúscula e cor de areia, carregando uma pequena letra: um P aqui, um A ali e um C acolá. Uma linha de formigas felizes. Por fim, lá se foi a linha de formigas embora, descendo pelo braço direito para a mesa, carregando letras, palavras, frases e parágrafos inteiros, na direção do formigueiro escondido no buraco da parede... elas alimentadas e eu vazio.
Esbugalhei os olhos, a respiração acelerada e a testa coberta de suor, como quem acorda de um pesadelo monstruoso. A única formiguinha continuava ali, andando no meu braço sem saber o terror que agora me afligia. Chocalhei o braço com força, fazendo o inseto repugnante voar para longe, num gesto de asco e desespero.
Ainda tinha os olhos úmidos de tensão e as mãos trêmulas quando voltei a fitar a tela do notebook, agora vazia, com um cursor piscando, como que numa interrogação intermitente...
"Onde eu estava mesmo? Eu tinha escrito alguma coisa antes!" pensei aturdido, ainda sentindo o eco dos minúsculos passos imaginários reverberarem na cabeça...
"Onde eu estava mesmo?"
Silêncio...
Vazio...
Abri a boca... fechei a boca...
...
Pousei a cabeça no tampo da mesa... um escritor derrotado por um trilheiro de formigas.
Ainda tinha os olhos úmidos de tensão e as mãos trêmulas quando voltei a fitar a tela do notebook, agora vazia, com um cursor piscando, como que numa interrogação intermitente...
"Onde eu estava mesmo? Eu tinha escrito alguma coisa antes!" pensei aturdido, ainda sentindo o eco dos minúsculos passos imaginários reverberarem na cabeça...
"Onde eu estava mesmo?"
Silêncio...
Vazio...
Abri a boca... fechei a boca...
...
Pousei a cabeça no tampo da mesa... um escritor derrotado por um trilheiro de formigas.
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