25 de março de 2012

Espresso

"Espresso" diz a placa de café em cima da minha mesa de jantar... e na amnésia literária causada pela falta que você me faz, essa palavra fica martelando nos meus olhos enquanto lembro de você saboreando café... seus labios tocando delicadamente a xícara, enquanto mantinha os olhos fechados...

"Espresso" é a vontade de desfazer minha saudade em você.

"Espresso" é o fim do texto, que com pouco já expressou tudo.

19 de março de 2012

Escritor, cursor, castor... estupor

O escritor sentou em frente à tela do notebook pensando "HA! É hoje!"

Entenda você que "hoje" na realidade deve ser lido como "agora", no sentido amplo daquela coragem difusa e enevoada de que são acometidos os escritores quando se sentam para fazer algo da vida. É igual àquele grito de guerra que faziam as tribos de outrora na hora de se lançar atabalhoadamente de encontro às lanças do inimigo, geralmente perdendo a vida ou um membro no processo. É o frágil ser humano, aturdido por alguma droga cafeinada, desafiando os deuses do caos, da falta de memória e, evidentemente, da falta de talento. O "HA" deve ser entendido como "HA" mesmo.

O escritor respirou fundo e preparou-se para começar a digitar... as ideias estavam na ponta dos dedos e bastava iniciar. Colocou os dedos acima do teclado e fechou os olhos, pensando-se um virtuoso e pensando no encadeamento mágico que o tornaria vitorioso em sua batalha épica. "Sim!", pensou sorrindo. Elevou o anular direito preparando-se para iniciar a frase, com um "O", e viu, com um encantemento quase extático, o dedo descendo em direção à primeira tecla...

"PAAAAAAIII.... paiêêêê!!!"

Congelando o movimento do dedo no meio do ar, o escritor sentiu aquele chamado estridente e primal como um atentado aos seus poderes criativos e sua capacidade imensurável de articular palavr...

"PAAAAAIII... acabei! Me limpa?"

Estupor.

17 de março de 2012

O afã na lonjura

Do calor do teu corpo me sorriem os lábios num estreitar de braços e pernas e num tocar de línguas e dentes; da carícia da tua boca me arrepiam as costas e as nádegas nuas, agora arranhadas e marcadas pelos teus carinhos e desatinos; dos teus cabelos no meu peito sobem os gemidos de ter teu peso em pelo sobre meu corpo inteiro; e no escuro, nos meus olhos, de pupilas grandes, a história se escreve simples: hoje te amaria muito...

14 de março de 2012

Instantâneo XIII

Quem disse que escrever é uma experiência sublime? Escrever pode ser sua alma batida num liquidificador; pode ser o ato mais solitário de sua vida, pois nem as palavras ficarão para ver o que restou de você...

Meu pé de limão*

Eu sempre quis ter um pé de limão na minha casa. A fruta me apraz, a cor me alegra... gosto da planta. Ter um limoeiro era uma forma de dizer que eu tinha raízes e, porque não dizer, frutos. Sim, ter o limoeiro na casa eram raízes e frutos, era ter um pedaço de terra no qual cavar um buraco e poder dizer: aqui está minha planta, aqui está minha casa.

Então um dia havia chegado o tão esperado momento: recém-casado com uma mulher que amava e dono de uma casa nova, saí para comprar limoeirozinho.

Fui no viveiro e escolhi um pequenino e frágil, mas era uma bela plantinha, com certeza daria conta do recado. Cheguei em casa com o fiapo de planta debaixo do braço e fui perscrutar o quintal em busca de um recanto tranquilo para o cidadão.... bem no fundo à esquerda parecia bom. Cavei o buraco com carinho e cuidado, adubei e chamei aquele lugar de "lar" do meu limoeiro.

As coisas andam para a frente e o tempo segue seu curso. Muitas coisas aconteceram desde que plantei o limoeiro naquele buraquinho. Problemas de vida, problemas do coração, um pouco menos de amor e um pouco mais de trabalho. Um tanto depois, com ele já mais crescido, sentei ao seu lado para conversar:

"Ó... eu sei que disse pra você que esse seria seu lar para sempre, mas eu preciso construir uma coisa aqui...", comecei, falando meio sem jeito. "Eu sei que havia prometido, mas não deu pra convencer a mulher a ser diferente. Ela disse pra eu arrancar você, mas eu disse que nem pensar... então, estou pensando no seguinte: quem sabe a gente muda você de lugar pra ali ó..." apontando para o lado direito do terreno encostado do muro. "Ali você vai ficar bem!", afirmei com a convicção de que tudo estava resolvido e tirando o peso do coração por machucar meu amigo

E assim foi feito. Agora ele não era mais somente uma plantinha. Era uma planta! Já batia no meu ombro e com certeza daria limões muito em breve. Deu certo trabalho pra mim e para o jardineiro, mas conseguimos tirá-lo do lugar onde estava e plantar no novo lar. Cuidei dele com afinco e, orgulhosamente, vi que suas folhas nem tinham murchado... ele foi valente e compreendeu sua importância. Perseverou, junto comigo, e suas raízes novamente buscaram a terra, assim como tentavam as minhas.

E lá ele ficou, enquanto a vida seguia. Seguia de modo automático, com aquela certeza amortecedora e lacônica. Seguia, diminuindo o amor. Sem ligar para meus problemas, o limoeiro cresceu e viscejou enquanto as chuvas caíram. Apesar da nuvem que agora aparecia no meu horizonte, olhava para meu limoeiro com felicidade, meu amigo verde.

Foi então que as folhas começaram a murchar e amarelar. Me lembro como se fosse ontem. Ao olhar para aqueles tons dourados no meu amigo, antes verde, meu coração espremeu e doeu. Meu limoeiro! Estava doente! Corri para perto e vi que a terra estava seca, que as chuvas tinham cessado, que ninguém cuidava dele enquanto eu estava fora. Água, água! ÁÁÁgua!! Dei de beber para meu tesouro, mas a água penetrava a terra e se perdia, se esvaía como se não existisse fundo, como se nada a segurasse a tempo do infeliz beber... me dei conta que o lar o estava matando de sede, que o lar o estava lentamente definhando.

"Ó..." comecei a conversa determinado, ignorando qualquer tentativa de discussão. "... nem pensar você morrer e me deixar aqui sozinho. Tá vendo ali ó..." falei apontando com o dedo para um espaço em frente à minha oficina, onde a grama vicejava. "É ali que você vai ficar, junto de mim e da minha oficina. Ali você vai ficar bem. Ali ficaremos bem, eu e você. Dali você nunca mais vai sair!"

E assim foi feito pela terceira vez... com força e um certo sacrifício, pois agora o limoeiro era uma planta grande, apesar de murcha. Mas o lugar escolhido foi perfeito. Eu podia vê-lo das duas janelas da minha oficina: pude vê-lo se recuperando e crescendo, pude ver suas folhas ficando novamente verdes, pude ver as primeiras flores e colher os primeiros limões, pude tomar a primeira limonada sentado à sua sombra, feliz, escorado em seu tronco. Eu e meu limoeiro lindo!

E a vida seguiu. Ao mesmo tempo que ele crescia e dava frutos, encolhia meu coração com o pesar de meu casamento, que começava a entrar em seu outono: mais sobrevida que vida, mais aparência que alimento para a alma.

Mas meu limoeiro continuava a me dar felicidade. A quantidade de flores era incrível, o cheiro, a cor, a textura. A quantidade de limões era incrível também: saborosos, grandes, cheios de suco, uma delícia cada um deles! Era como se ele dissesse para mim: "Que bom que você cuidou de mim... prestou atenção em mim, viu que eu estava tristonho e sempre arranjou um lugar novo pra eu ficar! Tome! Esse é meu presente para você." E os limões continuavam a crescer.

E foi assim que algo começou a acontecer, com ele e comigo. Com ele as folhas começaram a cair, enquanto as flores e os limões continuavam nascer e crescer, cada vez mais. Comigo as folhas começaram a cair, enquanto entrava no inverno de minha alma, o coração triste e solitário, esquecido de meu amigo. "Não me deixe! Fique comigo! Eu tenho raízes e frutos para nós dois!" dizia o limoeiro na linguagem das plantas.

Mas o tempo passou e as coisas pioraram: o esquecimento, a falta de cuidado, de atenção, de carinho. O tempo passou demasiado.

E um dia, sentado na escada que dava para o quintal, perdido em meio a pensamentos entristecidos e de despedidas, por fim me dei conta que meu amigo jazia solitário no quintal, perto da oficina onde com tanto carinho o havia plantado anos antes.

...

Por entre as brumas de meus sentimentos, vi seus galhos, altos e nus, antes majestosos, com umas poucas flores e limões restantes. Vi que meu amigo, antes lindo e cheio de vida, era agora um espelho de meu coração. Levantei e lentamente fui me sentar ao seu lado. Encostei a mão em seu tronco, sentindo a casca ressequida, seu corpo agora quase que inteiramente despido de vida.

"Você sabe que eu vou partir, não é?" falei baixinho. "Eu sei que a decisão é sua, mas porque você não fica? Porque você não fica aqui cuidando da minha oficina e a gente se encontra de vez em quando?" perguntei num sussurro, acariciando um pequeno botão de flor murcho em um galho.

E a vida segue a despeito das despedidas e separações. A despeito dos desencontros que criamos e nutrimos, ou desnutrimos. E a despeito a vida seguiu, apesar das despedidas e de minha separação, apesar de ter que deixar aquilo que considerei como sendo um dia meu. Meu pedaço de chão e meu limoeiro. Minhas raízes e meus frutos.

Pouco tempo depois soube que meu querido amigo verde tinha morrido. Tinha morrido como morrem alguns relacionamentos: sozinho no quintal, observando o tempo passar e sentindo a vida lentamente deixar de fluir. Morreu dando frutos e flores, num ato heróico de se reinventar. Morreu de tanto se doar.

Amei essa pequena planta. Minhas raízes e meus frutos. Meu pé de limão...

* Isso não é uma ficção: nem o limoeiro, nem eu e nem os diálogos, os meus pelo menos. A história de fato aconteceu como narrada.

Instantâneo XIIb

... é quando seu coração passou a viver de realidades e seu corpo a viver de promessas, e não o contrário, que você se dá conta que virou na esquina para o lado certo...

13 de março de 2012

O escritor e as formigas.

Disseram que escrever é fácil, que é só pensar e escrever. Bem, talvez fácil não seja a palavra, mas pelo menos é barato: está ali o teclado olhando pra mim, enquanto penso nas palavras que quero escrever. Não precisa de mais nada, a não ser o batucar suave dos dedos nas teclas.

Todo texto precisa de um tema, de preferência bem legal e motivador, sabe? Daqueles que prende o leitor e faz você se sentir bacanão. Mas o tema me foge...

As formigas fizeram novamente um trilheiro em cima da mesa. Não acredito! Eu limpei a mesa depois do café... Saco! Não entendo isso. Olha! Olha isso! Elas se dão ao trabalho de subir pelo pé da mesa, contornar a borda do tampo, chegar à parte superior, ir juntinhas até o centro e se espalharem para todos os lados procurando comida. Tem duas delas em cima do notebook: uma na tela e outra no teclado!

“Filha... NÃO tem comida no meu notebook!” pensei enquanto assoprava as formigas para longe.

Onde eu estava mesmo? Ahh... sim, no tema. Então...

Um tema bom, tem que ser um tema bom. Batalhas, mulheres, fogo e heroísmo? Dores, compulsões, fome e desgraça? Amores indizíveis, paixões, aventuras e devaneios? O Cotidiano? Deve haver algo de bom para se aproveitar no meio dessa confusão, não?... Com um lampejo, um sorriso e uma ideia voltei a olhar a tela e iniciei a fila de palavras que seguiam o pequeno cursor piscante do editor de textos...

A fila minúscula se moveu no canto de meu olhar, em cima do tampo da mesa. Não é possível! Piscando nervosamente os olhos voltei a me concentrar nas palavras escritas na tela e digitei rapidamente para não perder a ideia. Vai, vai, vai!... Riscos, perninhas, antenas, tampos de mesas, comida espalhada: trilheiros de formigas. Olhei nervosamente para aquilo se movendo em volta do notebook e senti como se estivesse se movendo dentro da minha cabeça! Tem uma delas em cima do meu braço!

Fechei os olhos com força e pensei na injustiça da situação, tentando esquecer aquilo tudo... mas senti a formiguinha caminhando no meu braço. Senti suas patinhas perambulando na minha pele e, de forma irresistível, imaginei como seria se centenas delas subissem pela mão, congelada em cima do teclado. Senti a força criativa me abandonando...

Deu pra imaginar direitinho: aquela linha de formigas, subindo pela mão esquerda, milhares de patinhas a caminhar, braço acima em direção ao ombro. Uma linha contínua, daquelas que fariam um escritor sentir inveja, tal a coesão de ideias, a força do movimento e harmonia de comunicação. Deu pra senti-las subindo pelo pescoço e entrando em meu ouvido esquerdo, marchando ordenadamente, atraídas pelo cheiro e sabor de palavras errantes e vistosas no interior de minha cabeça. Deu pra vê-las saindo pelo ouvido direito, cada uma delas, minúscula e cor de areia, carregando uma pequena letra: um P aqui, um A ali e um C acolá. Uma linha de formigas felizes. Por fim, lá se foi a linha de formigas embora, descendo pelo braço direito para a mesa, carregando letras, palavras, frases e parágrafos inteiros, na direção do formigueiro escondido no buraco da parede... elas alimentadas e eu vazio.

Esbugalhei os olhos, a respiração acelerada e a testa coberta de suor, como quem acorda de um pesadelo monstruoso. A única formiguinha continuava ali, andando no meu braço sem saber o terror que agora me afligia. Chocalhei o braço com força, fazendo o inseto repugnante voar para longe, num gesto de asco e desespero.

Ainda tinha os olhos úmidos de tensão e as mãos trêmulas quando voltei a fitar a tela do notebook, agora vazia, com um cursor piscando, como que numa interrogação intermitente...

"Onde eu estava mesmo? Eu tinha escrito alguma coisa antes!" pensei aturdido, ainda sentindo o eco dos minúsculos passos imaginários reverberarem na cabeça...

"Onde eu estava mesmo?"

Silêncio...

Vazio...

Abri a boca... fechei a boca...

...

Pousei a cabeça no tampo da mesa... um escritor derrotado por um trilheiro de formigas.

12 de março de 2012

Instantâneo XIIa

Gostar de alguém é como chegar em uma enseada segura depois de um mar tormentoso. E quando você abraça, cessa o vento e as ondas acalmam.

Instantâneo XI

... mas, tenho certeza, saudade também será o que a eternidade terá a dizer do meu olhar tocando a tua boca e do teu suspiro se perdendo no meu.

Instantâneo X

Ela poderia estar ali, deitada lendo, enquanto eu digito isso e tomo meu café... é assim que a percepção da falta se faz presente nos pequenos detalhes do cotidiano.

Instantâneo IX

Nem sempre estou coerente ou semântico... algumas vezes é só mesmo a vontade de tic tic tic... e ver palavras surgindo do vazio. E a despeito da incoerência primeira, me pego pensando no sentido das coisas e das vontades...

Instantâneo VIII

Alheio às pirraças e travessuras, indiferente aos amores e saudades, insensível às dores e lágrimas, segue o tempo sua trajetória inflexível e indeterminada; no seu encalço a vida.

Instantâneo VII

Algumas vezes a gente entra voluntariamente em uma era glacial emocional: é questão de vida ou morte interna e vc prefere congelar.

Não há nada de errado nisso... mas lembre-se que vc precisará de um arqueólogo pra descobrir seu coração no futuro.... nos casos piores um paleontólogo.

Instantâneo VI

Uma vida inteira de felicidade não garante a felicidade do amanhã. A vida não segue as regras de nossas intenções.

E a tristeza de hoje não impede a felicidade do amanhã. A vida não segue as regras de nossas desesperanças.

A vida não segue regras.

A vida não é uma teoria.

Instantâneo V

Suspiro é um sorriso do corpo quando a mente está exasperada.

Instantâneo IV

A intensidade da alma humana não está no explícito, mas no implícito e no potencial. De grandes coisas é capaz um oceano calmo e profundo.

Instantâneo III

A vida é repleta de pequenas tragédias e ainda assim a alma humana prossegue remando em direção ao desconhecido; remando com decisão firme, abençoada pela crença de que o futuro tem rumo e nexo... abençoada pela ignorância.

Instantâneo II

De tal forma me foi dado alimento que palavras agora não fazem o mínimo sentido... resta apenas um suspiro de saciedade nos lábios de um esfarrapado, ébrio de sensações.

Instantâneo I

É num boa noite amorfo e sem significado que apago a luz, enquanto ao pensar em palavras me fogem as ideias...