Sentaram-se, dois de um lado da mesa e o outro do outro lado, enquanto o quarto foi buscar as quatro canecas de cerveja no balcão do bar. Sentaram-se em silêncio, acomodando-se nos bancos de madeira. Olharam-se nos olhos.
O quarto chegou com as bebidas, colocando as canecas na mesa. Empurrou uma para a frente de cada um deles e sentou-se no banco vago. Olharam ao redor, ainda alheios à algazarra, cantoria e risadas que os cercavam. Depois de tudo que viveram e de todas as vezes que a morte lhes sussurrou segredos aos ouvidos, a felicidade dos fregueses do bar parecia incapaz de os alcançar dentro das profundezas na qual se encontravam.
Lentamente, um a um, voltaram os olhos para as canecas à sua frente. A cerveja era clara e cheirosa, a espuma branca escorrendo pelos lados e formando pequenas poças sobre o tampo de madeira.
Entreolharam-se novamente, olhos intensos e profundos, velhos demais para seus corpos.
Era hora do brinde, como haviam combinado, muito tempo atrás em um lugar distante. Um brinde ao viver, aos companheiros perdidos, às singelas felicidades entremeadas com agruras indizíveis, à saudade, às partidas e ao destino que os reunira ali... um brinde àqueles poucos que haviam sobrevivido para contar a história dos muitos que pereceram.
Ainda olhando para a cerveja, um deles esboçou um sorriso tímido. Os outros três o fitaram surpresos.
- Parece deliciosa. - disse baixinho. - Não é?... - disse olhando para os outros interrogativamente.
O mais novo sentiu os olhos marejando, sentindo o controle lhe escapar por um segundo.
- É. Parece. - disse em um sussurro emocionado.
O mais velho pegou a caneca e a levantou solene, olhando para os demais, que o seguiram. Sem dizer palavra, tocaram gentilmente as canecas e as levaram aos lábios, sorvendo lentamente o líquido amarelo e espesso. Sorviam o privilégio de estar ali bebendo; a culpa e a honra de estarem vivos.
Colocaram as canecas sobre a mesa.
Entreolharam-se mais uma vez, agora sorrindo de leve.
Por hora, nada realmente importava...
Algumas vezes o tempo não cura as feridas, pois são profundas demais. Estar ali, com os outros três, significava que, em certa medida, haviam se tornado menos humanos que antes, mas ao mesmo tempo mais humanos que nunca. Isso nunca mudaria e eles teriam tempo de sobra para pensar nisso.
Então, por hora, nada realmente importava: nem os sorrisos, nem as lágrimas, nem os olhares... apenas o fato de estar vivo para brindar naquela mesa de bar.
Como que pensando a mesma coisa, os quatro levaram novamente as canecas ao alto...