Certa feita, estava com os pensamentos perdidos enquanto olhava com um olhar vazio para o monitor do computador, no trabalho. Ao meu lado, sobre a mesa, um livro que havia trazido comigo, caso o dia ficasse realmente lento: A menina que roubava livros, de Marcus Zusak.
Nisso correram os minutos, até que, pelo canto do olho, reparei na menina que retirava o lixo da sala se aproximar da minha mesa. Com o pé, pesquei a lixeira que ficava muito por debaixo da mesa e a puxei para fora, no que penso ser uma minúscula delicadeza para com a servente.
Ela se postou ao lado da minha mesa, segurando um enorme saco de lixo preto, fitou o livro e começou a conversa, que acabaria por ter um final inusitado:
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Humm! Ele lê!
-
É, eu leio. - Comentei com a efusividade de uma lesma, muito embora estivesse meio surpreso com a surpresa dela.
"
Bem, talvez encontrar um leitor nos dias de hoje seja quase como encontrar um ninja correndo com uma espada pela rua. Frase com uma conclusão triste, essa sua, moça."
-
Minha irmã leu esse livro. Disse que é muito bonito. - Não sabia muito bem o que esperar da conversa, mas devo confessar que o comentário dela me surpreendeu e levou meu pensamento na direção de um debate sobre arrogância intelectual... só que não deu tempo:
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Eu também leio tudo o que me passa pela frente. - continuou.
-
Mesmo? - peguntei, com uma leve esperança na conversa.
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É, sim! Especialmente os livros espíritas. - continuou ela.
"
Nãããão! A conversa tava indo bem, moça..." comecei a pensar, franzindo o senho, mas ela não me deu tempo de elaborar o pensamento:
-
Leio todos, sobre espiritualidade, religião, essas coisas. Você sabe, não é?
-
É, sei. - Não querendo me alongar sobre o conceito de ateísmo e abandonando o diálogo.
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São excelentes eles. Ajudam muito a gente. Você não acha?
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Humpf! - respondi, voltando a encarar o monitor, levemente mal humorado.
-
É, ajudam sim. Por isso leio todos!
Me concentrei no monitor e esperei ardentemente que a conversa não descambasse para uma tentativa de conversão religiosa. Ela, notando minha minha falta de entusiasmo, calou-se e pegou a lixeira, entornando o conteúdo dentro do enorme saco preto.
-
Você já leu o livro da Bruna Surfistinha?
Pisquei uma ou duas vezes, aturdido com a sutil mudança no tópico da conversa. "
Ok, agora você conseguiu chamar minha atenção!" Virei-me para observá-la.
-
Não. Você leu?!
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Ah, li sim! - disse animada -
Tem umas passagens bem picantes! - Disse com um sorriso maroto nos lábios e um olhar brilhante.
Fiquei olhando para ela, contendo a vontade de sorrir abertamente. De religião para pornografia, a coisa havia sido inesperada demais.
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Agora quero ler aquele outro... - continuou ela -
Como é o nome? Não sei quantos tons de cinza?
-
Cinquenta tons de cinza? - falei, tentativamente.
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Esse mesmo! - disse ela, sorrindo -
Você leu?
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Eu? Não.
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Você sabe quantos livros são? Ouvi dizer que é mais de um.
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Sim, são três.
-
Será que é bom?
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Não sei dizer. - falei, não querendo entrar nos detalhes de que sabia que o livro era péssimo.
-
Será que é igual ao da Bruna Surfistinha?
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Não sei dizer. Parece que é um livro bem pesado. - falei, por falta de outro adjetivo.
-
Pesado? - perguntou ela, com interesse. -
Como assim? Será que é picante?
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Bem... - comecei a frase, sem saber direito como continuar. -
Ouvi dizer que o livro não tem uma história muito boa e... bem, na verdade o livro é pornográfico, mesmo.
-
Pornográfico? Mesmo?!
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É. - disse simplesmente, observando-a.
Ela soltou uma leve risadinha, o olhar agora tão perdido quanto o meu estava antes, mas por motivos muito diferentes.
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É disso que eu preciso! - murmurou ela se afastando.