26 de agosto de 2013

Perfume

Esses tempos estava com meus meninos em casa e nos preparávamos para visitar uma amiga. Estando eles vestidos e prontos para sair, perguntei:

- Alguém quer passar perfume?

O mais novo prontamente se adiantou com um sorriso, enquanto o mais velho fez uma cara levemente mal humorada. Passei perfume na nuca do pequeno e, lá pelas tantas, o maior pergunta:

- Porque você passa perfume, pai?

Pensei durante alguns segundos, decidindo como abordar a questão, e então respondi:

- As mulheres sempre aspiram o perfume de um homem que gostam, quando chegam perto dele, filho. Isso mesmo antes de antes de o abraçar e beijar. E sempre que elas sentem o cheiro desse perfume, mesmo que o homem não esteja por perto, elas relembram daquele homem de que gostam.

Fiquei olhando para ele com franqueza, enquanto ponderava sobre o assunto, com um olhar de cara-você-tem-certeza-?. Por fim, de modo relutante, aquiesceu em colocar um pouco de perfume na nuca.

Partimos então para a visita.

Ao final da visita, enquanto me sentava no banco do motorista e afivelava o cinto, o mais velho foi se despedir de minha amiga, que prontamente lhe tascou um beijo e aspirou profundamente, falando em seguida com espalhafate:

- Nossa! Que menino mais cheiroso!!

Ele ficou encabulado e entrou no carro, sentando em sua cadeira de mansinho. O mesmo aconteceu com o mais novo, que ficou todo feliz com o afago.

Depois de um silêncio mais ou menos prolongado, o maior falou, bem baixinho:

- Você tinha razão, pai...

Sorri para ele pelo retrovisor, vendo seu olhar de vou-me-lembrar-disso-para-sempre.

Ser pai...

19 de agosto de 2013

Das Regras do Diálogo

Um diálogo consiste na troca ordenada de sentenças entre duas ou mais pessoas, com ou sem objetivo concreto imediato, com ou sem conteúdo. Ainda assim, segue um código de ética particular, largamente ignorado nos dias atuais.


  • o diálogo é voluntário;
  • o dialogo, regido por preceitos de educação e delicadeza, pode ser encerrado a qualquer momento;
  • se uma pessoa está em silêncio, pode ser que ela não queira dialogar com você. Convém perguntar se ela está disposta a dialogar ANTES iniciar um diálogo;
  • se duas pessoas estão falando ao mesmo tempo, isso não constitui diálogo;
  • ao dialogar com alguém, espere essa pessoa terminar de falar antes de iniciar sua fala;
  • ao se aproximar de pessoas dialogando, espere sua vez de falar e tente perceber sobre o que estão falando - o objetivo aqui é você se inserir no diálogo e não arrastar as outras duas pessoas para seu diálogo;
  • interromper o diálogo entre duas pessoas para expressar um monólogo seu é desrespeito grave à ética do diálogo;
  • se você tiver necessidade de interromper o diálogo entre duas pessoas para expressar uma ideia, peça desculpas pela interrupção e pergunte se pode expressar uma ideia, deixando claro que ela pode ou não ter correlação com o assunto delas;
  • nunca, EM HIPÓTESE ALGUMA, dialogue com comida na boca - seguindo as regras de um diálogo, a pessoa que dialoga com você esperará gentil e educadamente que você engula sua comida e expresse suas ideias;
  • utilizar-se do fato de que a pessoa que dialoga com você está com comida na boca para expressar conclusões em nome dela constitui desrespeito grave à ética do diálogo;
  • existe uma enorme diferença entre dialogar e falar. Se a pessoa com a qual você estava dialogando estiver calada por muito tempo, pode ser que o assunto não seja mais do interesse dela e convém calar-se ou mudar de assunto, caso ainda haja interesse no diálogo;
  • é falta de educação não olhar a pessoa com quem você dialoga;
  • se a pessoa com quem você está dialogando não estiver olhando para você, ou ela não está dialogando com você, ou ela é educada demais para dizer que não tem interesse no diálogo ou você está cometendo alguma falha grave como, por exemplo, estar dialogando com a boca cheia de comida;
  • No caso do diálogo ser encerrado com educação, consiste falha grave você se ofender com isso, indicando que lhe falta maturidade para dialogar.
  • Na dúvida, NÃO DIALOGUE.

15 de agosto de 2013

É disso que eu preciso...

Certa feita, estava com os pensamentos perdidos enquanto olhava com um olhar vazio para o monitor do computador, no trabalho. Ao meu lado, sobre a mesa, um livro que havia trazido comigo, caso o dia ficasse realmente lento: A menina que roubava livros, de Marcus Zusak.

Nisso correram os minutos, até que, pelo canto do olho, reparei na menina que retirava o lixo da sala se aproximar da minha mesa. Com o pé, pesquei a lixeira que ficava muito por debaixo da mesa e a puxei para fora, no que penso ser uma minúscula delicadeza para com a servente.

Ela se postou ao lado da minha mesa, segurando um enorme saco de lixo preto, fitou o livro e começou a conversa, que acabaria por ter um final inusitado:

- Humm! Ele lê!
- É, eu leio. - Comentei com a efusividade de uma lesma, muito embora estivesse meio surpreso com a surpresa dela.

"Bem, talvez encontrar um leitor nos dias de hoje seja quase como encontrar um ninja correndo com uma espada pela rua. Frase com uma conclusão triste, essa sua, moça."

- Minha irmã leu esse livro. Disse que é muito bonito. - Não sabia muito bem o que esperar da conversa, mas devo confessar que o comentário dela me surpreendeu e levou meu pensamento na direção de um debate sobre arrogância intelectual... só que não deu tempo:
- Eu também leio tudo o que me passa pela frente. - continuou.
- Mesmo? - peguntei, com uma leve esperança na conversa.
- É, sim! Especialmente os livros espíritas. - continuou ela.

"Nãããão! A conversa tava indo bem, moça..." comecei a pensar, franzindo o senho, mas ela não me deu tempo de elaborar o pensamento:

- Leio todos, sobre espiritualidade, religião, essas coisas. Você sabe, não é?
- É, sei. - Não querendo me alongar sobre o conceito de ateísmo e abandonando o diálogo.
- São excelentes eles. Ajudam muito a gente. Você não acha?
- Humpf! - respondi, voltando a encarar o monitor, levemente mal humorado.
- É, ajudam sim. Por isso leio todos!

Me concentrei no monitor e esperei ardentemente que a conversa não descambasse para uma tentativa de conversão religiosa. Ela, notando minha minha falta de entusiasmo, calou-se e pegou a lixeira, entornando o conteúdo dentro do enorme saco preto.

- Você já leu o livro da Bruna Surfistinha?

Pisquei uma ou duas vezes, aturdido com a sutil mudança no tópico da conversa. "Ok, agora você conseguiu chamar minha atenção!" Virei-me para observá-la.

- Não. Você leu?!
- Ah, li sim! - disse animada - Tem umas passagens bem picantes! - Disse com um sorriso maroto nos lábios e um olhar brilhante.

Fiquei olhando para ela, contendo a vontade de sorrir abertamente. De religião para pornografia, a coisa havia sido inesperada demais.

- Agora quero ler aquele outro... - continuou ela - Como é o nome? Não sei quantos tons de cinza?
- Cinquenta tons de cinza? - falei, tentativamente.
- Esse mesmo! - disse ela, sorrindo - Você leu?
- Eu? Não.
- Você sabe quantos livros são? Ouvi dizer que é mais de um.
- Sim, são três.
- Será que é bom?
- Não sei dizer. - falei, não querendo entrar nos detalhes de que sabia que o livro era péssimo.
- Será que é igual ao da Bruna Surfistinha?
- Não sei dizer. Parece que é um livro bem pesado. - falei, por falta de outro adjetivo.
- Pesado? - perguntou ela, com interesse. - Como assim? Será que é picante?
- Bem... - comecei a frase, sem saber direito como continuar. - Ouvi dizer que o livro não tem uma história muito boa e... bem, na verdade o livro é pornográfico, mesmo.
- Pornográfico? Mesmo?!
- É. - disse simplesmente, observando-a.

Ela soltou uma leve risadinha, o olhar agora tão perdido quanto o meu estava antes, mas por motivos muito diferentes.

- É disso que eu preciso! - murmurou ela se afastando.