Por anos a fio ele fizera café para duas pessoas ao se levantar de manhã, mesmo sabendo que faria a refeição sozinho. Era sua estranha forma de acreditar que um dia encontraria a mulher de sua vida.
Mas os anos se passaram e o café da manhã tornou-se, ao contrário do que ele desejava, um símbolo de sua solidão, um templo sem fé e sem deuses.
Até que um dia, cansado daquilo, serviu-se apenas de um copo de suco de laranja, num ato de revoltada heresia. Enquanto comia, impaciente, batucava com a faca sobre o guardanapo, mastigando a torrada com pressa, disposto a acabar logo com aquilo.
Olhou para o guardanapo, sujo de farelos e manteiga. Franziu o cenho. Deu outra mordida na torrada. Batucou mais uma vez com a faca. Parou. Franziu mais o cenho, a tensão no limite. Largou a faca de lado. Pegou a caneta do bolso da camisa. Olhou mais uma vez para o guardanapo.
Por fim, num impulso incomum e inapropriado, destampou a caneta e começou a escrever rapidamente no pedaço de papel. Quando acabou, havia uma lista com quatorze itens... não quinze, nem treze: quatorze.
Irritado, passou os olhos uma última vez pelo que havia escrito. Dobrou o guardanapo, passou o lado limpo sobre a boca, levantou-se, amassou o guardanapo e jogou-o sobre a mesa. Pegou as chaves e saiu de casa para o trabalho, sozinho e resmungando.
- Não existe uma mulher com essas qualidades... idiota. Viva à solidão... - sussurrou entre dentes, batendo a porta com mais força que a necessária.
...
A sala observou em silêncio o guardanapo lentamente se desamassar sobre a mesa, expondo novamente a lista escrita à mão.
O homem ainda não sabia, mas a lista havia selado seu destino.