Entrei no consultório com aquele desconforto típico dos
acometidos de enfermidades. Afinal, diga-me se não esse é o motivo de se ir a um consultório:
sentir-se desconfortável. Olhei para os lados tentando agrupar algumas memórias de como se portar em público em um lugar desses, sentindo o mau humor me corroer as entranhas. Vi uma secretária ao
balcão e para lá me dirigi: ali deveria existir uma resposta.
- Bom dia, senhor! – comprimentou-me a atendente, com um sorriso
condescendente nos lábios.
- Bom dia. – resmunguei sorumbático.
- O senhor tem consulta marcada?
- Sim. 10:45.
- Identidade, por favor. – peguei a carteira do bolso,
retirei a identidade e a entreguei, esperando a confirmação de
que eu era eu mesmo. – Sim, aqui está. O senhor pode aguardar um pouco, por
favor? O doutor já vai lhe atender. - disse ela entregando-me a carteira.
“Jura?” pensei. – Obrigado. – respondi com o cenho franzido.
Guardei a identidade, coloquei a carteira no bolso e me
voltei para ver se havia algum lugar disponível para sentar. Ao canto, ao lado
das revistas, havia uma última cadeira vaga. “É isso aí.” Dirigi-me para lá,
sentei-me, peguei uma revista e bufei, contrafeito com a espera.
Fechei os olhos por alguns segundos, tentando relaxar. Uma
respiração profunda, duas, três. Pisquei os olhos, sentindo o papel da revista
entre os dedos. Mais calmo, suspirei e me dei conta, com certa curiosidade, de como
o papel entre os dedos me remetia a memórias longínquas, a uma infância há
muito vivida e em parte esquecida.
Sempre gostei de ler, sabe? Desde a mais tenra
infância já lia revistinhas e pequenos livros de história, placas de trânsito e
anúncios de jornal, qualquer coisa, enfim, que tivesse letras.
A
rabugice diminuiu de leve nos lábios enquanto minha mente me fornecia alguns reprises infantis. Folhei de leve a revista, observando as figuras.
Recordei, então, de quando a leitura invadiu
o banheiro. Em algum momento de minha vida, sentar no vaso sanitário para “ir aos pés”, como dizia
minha mãe, tornou-se fonte de sabedoria e informação. Sempre havia algo para
ler ao lado da privada: uma revista, uma história em quadrinhos, um livro, ou
qualquer coisa similar deixada pelos meus pais ou irmãs. Era um momento de alívio e entretenimento e, de certa forma, a leitura ajudava o corpo a encontrar algum tipo de ritmo primal, que tornava as coisas mais fáceis, como se a mente, entretida pelo ato de ler, deixasse o corpo à vontade. Enfim, as coisas iam bem na presença de um livro ou dois.
Tirei os olhos da revista, olhando para a luz do consultório
e relembrando o que havia aprendido nesses momentos de contemplação: história, geografia, literatura,
ciências, fofocas, aventuras, dramas e xadrez. De fato, acho que devo muito de minha cultura à
existência do vaso sanitário.
"Mas nem tudo foram flores", lembrei com um
estremecimento.
Um dia, sentei-me no vaso com certa pressa, devo dizer, daquelas pressas inadiáveis que nos acometem, aqui e ali. Imediatamente me
dei conta, estarrecido, de que não havia nada para ler. Olhei para os lados aparvalhado, a ordem subvertida, sem
saber direito o que fazer, sem conseguir deixar ir o peso que me havia trazido até ali. Tentei fechar os olhos e esquecer a maldita leitura, mas tudo congestionou-se, como que esperando um sinal de tráfego verde. E o sinal verde eram letras num papel. Sentindo se avolumar o absurdo da situação, num átimo de
desespero abri rapidamente uma gaveta do armário debaixo da pia e peguei a
primeira coisa que minha mão tocou: um rolo de papel higiênico. "Não!! Letras... preciso de letras!" pensei, jogando o rolo longe e sentindo o suor brotar na testa. Enfiei a mão voraz novamente na gaveta e dessa vez meus dedos de lá sacaram, com certa violência devo dizer, uma caixa de pasta de dente.
As letras eram minúsculas, mas bastaram. Doces palavras, aquelas incompreensíveis "Sodium Lauryl Sulfate", "Propylene Glycol" e "Sodium Fluoride". Quando, afinal, cheguei em "Limonene e Cinamaldeído" os ritmos naturais haviam sido reconquistados e meu corpo leve jazia esgotado sobre o vaso sanitário. Foi nesse dia que
constatei que ler, enquanto satisfazia uma das necessidades mais fundamentais do
homem, havia se tornado um vício. Nesse dia também descobri a finalidade primeira dos rótulos
de remédios, etiquetas de xampu e embalagens de sabonetes.
Fechei os olhos, recordando o dia fatídico com desgosto.
Resolvido a nunca mais passar por essa situação bizarra, passei a checar com certa antecedência se havia livros ou revistas no banheiro que usava em casa. Conferia as gavetas para ver se, numa emergência, haveria alguma embalagem com instruções ou até mesmo um termômetro ou balança com suas escalas imutáveis, não importava muito: se havia letras, tudo estava em ordem. Fora de casa as coisas eram muito piores, mas não gosto de me lembrar disso.
O tempo passou e a infância deu lugar à adolescência... e à miopia.
Míopes não enxergam bem as coisas que estão longe, mas enxergam muito bem as coisas de perto. Tive que ir ao oftalmologista e passei a usar óculos, para bem de poder passar de ano na escola. Nessa época descobri duas coisas. Primeiro que conseguia ler perfeitamente até as menores letras imagináveis, como as presentes nas bulas de remédios. Segundo que não conseguia operar os intestinos adequadamente se estivesse usando óculos. Nunca descobri o motivo. Talvez algum chinês astucioso fosse capaz de averiguar que, pela pressão do óculos em algum ponto de Do-In, meus intestinos se recusavam a funcionar. Vai entender. Era igual super-herói: para as coisas acontecerem, tinha que me livrar dos óculos. A sinergia da miopia com as tripas foi, para mim, uma descoberta tão importante quanto a invenção do telefone.
E assim seguiu minha vida íntima, nesse equilíbrio precário entre a cultura e o vaso sanitário, do mesmo modo que a insulina para o diabetes.
Mas tudo o que é bom dura pouco, engorda ou faz neném, como me disse uma namorada uma vez.
Com o inexorável passar dos anos, meus olhos lentamente se cansaram das minúsculas letras. Inicialmente eu ainda as via, ainda que borradas. Depois, porém, tive que começar a afastar a embalagem de pasta de dentes a fim de identificar os símbolos, que corriam para lá e para cá, se embaralhando uns aos outros como um bando de formigas epiléticas. Por fim, nem colocando a caixa sobre os pés, no chão, eu conseguia ler as letras menores. Conseguia, evidentemente, ler a palavra "Colgate", afinal ela tinha dez centímetros de comprimento e eu não estava cego. Mas, aparentemente, ler repetidas vezes a mesma palavra era igual recitar um mantra do mal e meus intestinos simplesmente adotavam alguma postura contorcida de yoga e nada mais acontecia. Subitamente as pastas de dente, sabonetes, remédios e xampus haviam deixado de ser oásis e portos seguros.
Passei a mão na testa, como que tentando apagar a lembrança de como essa descoberta havia pressagiado tempos difíceis.
E isso foi somente o início do problema. Lentamente o universo de letras começou a borrar e os temores de infância passaram a se avolumar no horizonte como uma tempestade agoniante, como um céu cheio de cólicas. Os primeiros a tombar em combate contra a falta de visão foram os remédios e pastas de dente, seguidos pelo creme hidratante e as instruções do barbeador. E o rastro de destruição avançou com fúria avassaladora: classificados, livros de bolso, meus livros de xadrez, revistas, tudo sendo lentamente engolido pela lesma do borrão.
Quando finalmente minha incapacidade de leitura atingiu a dimensão das chamadas de manchetes de primeira página do jornal, me dei conta de que estava de fronte à ruína de uma instituição que antes pensei ser eterna: a paz entre o corpo e a mente, criada pela leitura ao vaso sanitário.
Providências tinham que ser tomadas, urgentemente.
Encostei a cabeça na parede do consultório, suspirando, tirei os óculos e esfreguei os olhos. "Traidores!" pensei, infeliz.
- Senhor! - Abri os olhos e vi a atendente acenando. - O doutor vai lhe atender agora. - disse ela.
Larguei a revista na mesa lateral, levantei-me da cadeira e me dirigi lentamente à porta entreaberta que ela me indicava. Abri a porta e entrei, fechando-a atrás de mim. Caminhei até a mesa e me sentei com alguma dificuldade na cadeira á sua frente. O doutor ("Karl Steichen - Oftalmologista", diria a plaquinha sobre a mesa, se eu a conseguisse ler sem os óculos) me olhava com curiosidade medicinal. Quando me aquietei, ele perguntou:
- Então! O que posso fazer por você?
Lentamente coloquei os óculos sobre o nariz e o encarei com um olhar atormentado.
- Estou com prisão de ventre, doutor.