22 de abril de 2013

Fragmento Censurado V

"Vim aqui escrever escondido, tomando a precaução de não ser visto enquanto trilhava o caminho pela internet. Cliques aleatórios do mouse cobriram meus rastros e a ninguém será possível reconstruir a lógica bizarra que me levou a essa postagem. Portanto estamos a sós, você e eu. Ninguém com você e ninguém comigo, só nós dois. Nosso momento e nosso lugar."

Ouvi um ruído... parei de digitar, o coração parando um instante para titubear em sua profissão. Olhei para os lados, ouricei as orelhas e ouvidos, pelos e unhas... fiquei uns instantes parado, apenas respirando de leve, as mãos acima do teclado, dedos tremendo.

O tempo passou.

"Não foi nada", pensei comigo.

Com um suspiro voltei a atenção ao notebook.

"Faz tempo que não apareço. Sinto sua falta. E você? Sente a minha? Aposto que você nem lembra mais de mim." Abri um sorriso. Frase idiota e sentimental. <del> <del> <del>

"Então? O que vai ser hoje? Putaria?... É, putaria cai bem pra caralho com meu humor de hoje. Nossa, velho! Estou tendo umas ideias bem malucas de uns tempos pra cá, você nem acreditaria."

Abri um sorriso, fechei os olhos e deixei entreabrir-se a porta para o voo imaginário que me lançava num mundo de perversão privada, numa festa onde só entravam convidados...

"Ela estava nua na cama, o cabelo jogado sobre o rosto, as pernas delicadas entreabertas e os braços esticados ao lado do corpo. Eu via seus olhos por entre os fios de cabelo. Ela sabia o que a aguardava. Seu corpo estava tenso de expectativa, os punhos fechados, os lábios entreabertos."

"É, isso foi um bom começo!" pensei sorrindo.

"Peguei a algema de couro nas mãos, os dedos sentindo o couro macio da parte interna e o fecho duro por fora. Me aproximei da cama e segurei seu pulso delicado. Sem tirar os olhos dos dela, envolvi o pulso com a algema, ajustando lentamente a correia do fecho. Seus olhos estavam imóveis, grudados nos meus, mas sua respiração estava acelerando. Fechei a algema e deitei o braço novamente na cama."

Um gole de uísque caía bem agora. Peguei o copo da cristaleira, a garrafa de Dalmore. Puxando a rolha, ouvi o espoucar suave. Inclinei a garrafa e observei o líquido dourado escorrer para dentro do copo. Porra de uísque bom.

"Desviei levemente o olhar, observando a algema de coxa sobre a cômoda. Abri um leve sorriso, antecipando o momento que o braço estaria preso à perna."

Porta se abrindo, passos, porta se fechando, chaves sendo jogadas na mesa, bolsa, sapatos de salto, passos, passos.

Meu cérebro entumescido demorou sinistros segundos para processar a informação do mundo exterior, perdido na contemplação da cena erótica que pairava em frente a meus olhos.

PASSOS!

Meus olhos abriram tão rápido que quase senti as pálpebras se chocando com a testa, os olhos quase saltaram da órbita.

FUDEU!

Muda de tela, muda de tela... rápido animal! MUDA DE TELA!!! Os dedos chocando-se uns contra os outros.

O rosto apareceu na porta.

Fechei a tela do notebook com uma pancada.

- Oi bem! Tudo tranquilo?

- Tudo! Tudo ótimo! - forcei um sorriso, enquanto escondia o copo de uísque debaixo da mesa.

- tem certeza que está tudo bem?

- Claro, tudo tranquilo! - Garanti mantendo o sorriso.

- O que você estava fazendo aí escondido?

- Escondido? Ah, nada. Escrevendo uma mensagem para mamãe. - O sorriso agora doendo no rosto.

Ela me olhou por alguns segundos, hesitando.

- Certo então. Vou trocar de roupa para jantarmos, ok? Não me demoro. - disse ela com um sorriso.

O rosto sumiu.

"Foi por pouco dessa vez." pensei, olhando com tristeza para o uísque, que agora seria lançado impiedosamente pela janela.

Fechei os olhos, observando silenciosamente a festa animada, que agora corria solta e feroz à distância.

Abri os olhos, suspirando.

Levantei e abri a janela. Olhei mais uma vez para o líquido dourado no copo que tinha nas mãos...