16 de março de 2015

O futuro é uma testemunha do seu presente.

Chamam-me de Futuro e aquele momento me interessava. Estava ali para me despedir. É isso que eu faço: me despeço quando um momento passa a ser do Passado. Estava eu, portanto, encostado a uma pilastra, próximo ao homem mais velho, aguardando o mais novo chegar. Seria um encontro curto, mas ainda assim queria estar ali para testemunhá-lo.

Fechei os olhos. Podia sentir que o mais jovem estava chegando, meio apressado. Ele veria o mais velho primeiro. Estava acostumado a prestar atenção aos espaços e às pessoas. O mais velho era conhecido por seu ar distraído e avoado. Era do tipo que ia de carro para o trabalho e voltava de ônibus, achando que tinha deixado o carro em casa.

Eles se conheceram muitos anos antes. O mais novo havia sido namorado de sua filha mais velha. Criaram uma amizade tranquila, os dois, que poderia ter florescido em algo maior, não fossem os percalços da vida. Terminado o namoro, afastaram-se, segundo ditam as regras dos homens. Apesar disso, mantiveram, cada um para si, uma lembrança do outro: uma piada, um momento, um sorriso.

Com o tempo, o mais velho separou-se e o mais novo casou-se. O mais velho ficou doente e o mais novo com pressa. Mas isso não importava demasiado ao momento do encontro. "Que se aproxima." - pensei, olhando para trás e vendo o mais novo aparecer na esquina.

Ao virar a esquina, o mais jovem imediatamente reconheceu o mais velho, que estava parado no meio da rua quase vazia. Vi seu reconhecimento e senti o leve salto em seu coração. Pude ver em seus olhos o debate interno entre continuar na mesma rua ou dar a volta para evitar o encontro. Um debate tolo, de quem pensa que tem tempo de sobra para viver. Mas eu sabia tanto o motivo do titubear quanto sua decisão final.

No colo do mais velho uma menina. Pequena criança, morena, cabelos encaracolados. Um vestido.

O mais jovem sabia quem era a menina: filha de sua antiga namorada.

Titubeou novamente, o ritmo do caminhar se perdendo em um semi passo desconcertado. Por fim, vi em seus olhos a decisão que sabia que tomaria. Iria até ao mais velho.

Caminhou então resolutamente.

- Oi. - disse, tocando de leve no braço do mais velho, que se virou para vê-lo.

- Olá! - disse surpreso o mais velho, observando-o através das grandes lentes quadradas de seus óculos. A menina virou-se em seu colo para observá-lo melhor, os olhos escuros e curiosos. - Tudo bem? Quanto tempo! - disse, com o sorriso desarmado que lhe era tão peculiar.

- Tudo bem. Muito tempo mesmo! - falou o mais novo sorrindo de leve. - E você? Como estão as coisas?

- Tudo bem. - disse, mudando a menina de braço.

- Vai ao cinema? - perguntou o mais novo, indicando com a cabeça o cinema em frente ao qual o mais velho estava parado.

- Não. Estou esperando a mãe dela. - disse inclinando a cabeça na direção da menina.

- Ah! - respondeu o mais novo, meio sem graça.

- E sue mãe? Tudo bem com ela?

- Sim, tudo bem. Está na cidade.

- Legal.

Alguns segundos de silêncio. "Nenhum dos dois é brilhante no quesito comunicação!", pensei sorrindo de leve.

- Bom, tenho que ir. - disse o mais novo por fim. - Legal ver você de novo.

- Sim, foi muito legal. - disse o mais velho sorrindo abertamente e tomando com firmeza a mão que lhe era oferecida.

O mais novo lançou um último olhar sério na direção do mais velho e, em seguida, da menina. Por fim, virou-se e seguiu seu caminho.

Tão rápido. Tão efêmero. De uma importância tão sutil e desapercebida.

Caminhei lentamente até ao mais velho, ainda parado no meio da rua à espera de sua filha com a neta no colo, e observei-o com atenção. Esse seria o último encontro deles. Só eu sabia disso.

Tão rápido. Tão efêmero.

Só eu também sabia que, ao longe, haveria de novamente unir os caminhos esquecidos entre o homem mais novo e a filha do homem mais velho. Mas isso é outra história.

Suspirei.

Tão insuspeito. Tão precioso.