O filme tinha sido divertido, muito embora histórias de amor somente a lembrassem que fazia muito tempo que estava sozinha. Ainda assim, a história tinha sido boa, pensou sorrindo de leve enquanto saía lentamente da sala do cinema.
Caminhou pelo corredor pensando em sua vida amorosa, a qual comparou com uma estrada deserta: um posto de gasolina a cada trezentos quilômetros. Um abastecimento apenas quando o tanque já estava na reserva... por anos. Esse não era um sentimento bom. Olhou com tristeza para os casais que saíam do filme sorridentes e trocando olhares e carinhos, seu sorriso murchando e o coração apertando.
"Droga." resmungou baixinho, enquanto apertava o passo para sair logo do cinema. "Quem sabe um chocolate resolve isso?", mas já tinha passado pela loja de doces na ânsia de sair logo dali. "É uma droga mesmo..." suspirou, decidindo não voltar. Caminhou para a porta de entrada decidida a sair.
Fazia frio na rua, um vento cortante soprando na noite. Fechando bem a gola do sobretudo, dobrou à direita e tomou rumo de casa. O vento e o frio combinavam com seu estado de espírito, fazendo-a tremer.
A vida era mesmo engraçada. Para todas as suas amigas, quando elas pararam de procurar o companheiro ideal, ele simplesmente caía do céu, como se algo conspirasse para fazê-las felizes. No caso dela, quando ela parou de procurar, simplesmente não apareceu mais ninguém. A vida caçoando de sua infelicidade, pensou, fungando de frio.
Virou a esquina e, com um olhar distraído, reparou no vendedor de doces encostado na parede. "O que diabos faz esse homem vendendo doces a essa hora da noite nesse frio?!" resmungou surpresa. Reparou no sobretudo poído e nos olhos cobertos por óculos escuros. "Cego!" falou baixinho, diminuindo o passo. Lembrou da vontade de comer doces. Sim, era sua chance.
- Boa noite! - falou se aproximando.
- Boa noite moça... - disse com uma voz profunda, o rosto sem expressão.
- O que você tem de bom? - perguntou observando a bandeja cheia de pequenas embalagens. Não conhecia nenhuma delas.
- O que a moça deseja?
- Queria um chocolate... gostoso. - fungou, pensando no filme.
- Hmm... não tenho desses - respondeu devagar. - Eu vendo outras coisas,
- Não?! O que o senhor vende? - perguntou preocupada, pensando em drogas. Olhou para os lados assustada.
- Depende do que a moça quer... - respondeu lentamente.
- O senhor não vende drogas né? Eu queria muuuito um chocolate... - falou alto, aflita - Queria muuuito um companheiro... - resmungou baixinho, cansada.
- Ahhh! A moça quer um companheiro! - disse abrindo um sorriso, ignorando a pergunta sobre drogas.
Aquilo foi estranho. Decididamente estranho. Estranho por estranho, a pergunta saiu antes que ela pudesse evitar:
- Que tipos de companheiros o senhor tem aí pra vender? - disse com um meio sorriso.
Ele passou a mão em cima das embalagens, tocando-as de leve, como se pudesse sentir as diferentes cores. O sorriso ficou maior, enquanto ele dizia:
- Vários tipos moça. Grandes amores, pequenos amores, amigos, pra toda vida, por pouco tempo... tenho de tudo.
O vendedor definitivamente era louco... mas a vontade de comer chocolate estava crescendo. Com certeza ele tinha chocolates ali; com certeza era a vida caçoando novamente dela, numa noite escura e fria. Correu os olhos pela bandeja, observando as diversas embalagens: brancas, vermelhas, grandes e pequenas. Nenhuma delas lhe despertou a curiosidade. Nisso reparou em uma embalagem negra, no canto superior da bandeja: brilhante, sedosa, comprida, misteriosa. Devia ter alguma coisa saborosa ali dentro.
- Quero aquela ali. - disse apontando para a embalagem misteriosa. "O sujeito é cego, sua idiota!" - Desculpe, quero aquela preta ali do canto... - falou embaraçada.
O sorriso se fechou. O vendedor ficou parado, como se a estivesse observando, analisando sua compleição física, seu cabelo, seu rosto... Bobagem, pensou, o sujeito é cego.
- Quanto é? Quero levá-la.
- A moça tem certeza? Quem sabe ela leva um companheiro carinhoso? - apontando para uma embalagem amarelada.
- Não, quero aquela ali mesmo. - falou, cansada e irritada.
- Um companheiro para a vida toda? - disse apontando para uma embalagem vermelha.
- Não moço! Quero aquela ali mesmo... a preta do canto.
- A moça tem certeza? - perguntou com um ar estranho.
- Claro que sim! O senhor vai me vender ou não? Estou com frio e quero comer isso. - bufou.
- Certo, certo... - Falou lentamente, enquanto pegava a embalagem com cuidado.
- Quanto é?
- Não é nada não... pode ficar com ela de graça. - falou como se tivesse tomado uma decisão.
- Nem pensar... tome. - estendeu a mão com uma nota.
- Obrigado moça, não precisava - disse o vendedor pegou o dinheiro.
- Não por isso. - Disse pegando a embalagem e colocando no bolso. Virou-se e recomeçou a caminhar.
- Moça! - disse ele alto, fazendo-a parar e virar - Eu vendo fantasias moça, além de companheiros. A moça comprou uma fantasia... fantasias podem virar companheiros, mas não é sempre. A fantasia que a moça comprou pode ser bem estranha... aconselho a moça a comer isso com cuidado! - falou sorrindo.
- Humpf! - bufou ela voltando a caminhar, os olhos tristes perdidos na noite. - Vendedor maluco!
O vendedor acompanhou-a com os olhos cegos, o sorriso se transformando numa risada baixa e profunda. - Se prepare... você está precisando dessa fantasia, moça. - disse baixinho.