15 de novembro de 2012

Canalha

Eu gosto de sentar e observar as mulheres. Faço isso já há muito tempo, aqui e ali, perdido na noite ou no dia, de preferência na noite. Gosto especialmente de ficar sentado em uma mesa de bar observando as mulheres passarem, como agora. Pra acompanhar, uísque, sempre, cowboy, copo quadrado, transparente, no qual posso ver claramente a cor dourada do meu colega. Unidos, eu e o uísque, formamos uma dupla imbatível.

Mas algumas vezes eu me irrito, nessa parada de observar. Não suporto, por exemplo, ver mulheres que se prendem em si mesmas. Acredito firmemente na expressão do sexo. Sexo é mulher, e se é mulher, tenho que saber onde estão os peitos e a bunda. Aí vem o problema: nem sempre é possível descobrir onde haviam parado os peitos ou as bundas de algumas mulheres... e isso é irritante.

Observar mulheres é uma arte, irmão. Funciona assim: primeiro você olha para os pés e os sapatos da dona.  Esquece a bunda e os peitos. Os sapatos são importantes. Isso diz muito sobre o que está mais pra cima. Dizem que a alma de uma mulher se vê pelo sapato e bem poucas mulheres sabem dessa verdade. E reza pra elas continuarem a não saber disso, cara, porque é sempre por ali que você pega a mulher pelo pé. 

Algumas vezes, por exemplo, você vê aquela mulher recatada, santinha e arrumadinha, mas ela calça um sapato de salto vermelho... Meu irmão, isso é o diabo da Tasmânia dentro de um quarto fechado! Se você resolver sair com uma dessas, leva extintor de incêndio porque a parada é sinistra. Se você ver uma dessas, pra encarar tem que ter segurança no taco, irmão.

De outras vezes, você vê aquela mulher toda gata, produzidona, cheia de firula, mas uma sandalhinha chinfrim  os pés meio virados pra dentro... dá até pra imaginar as unhas mal feitas e, talvez, alguma pereba... nem vale o tempo de olhar uma segunda vez. Mulher que não cuida do pé, não cuida do resto. Se não cuida do resto, tô fora.

Enfim, companheiro... sapato tem tudo a ver com bundas e peitos, entendeu? Pode acreditar no que estou falando.

Roupa, por outro lado, não quer dizer nada. Já ouvi falar de muita mulher recatada e que se veste sem chamar a atenção, mas que na hora H arranca os ossos do amigo na cama... e de outras que mostram tudo, mas não dão nada pra ninguém. Tá necessitado? Fala com a Cruz Vermelha, cidadão, porque daquele mato não sai coelho.

Esses truques você só aprende numa mesa de bar, colega, tomando uísque... apreciando a paisagem.

Como todo predador de respeito, tenho minhas predileções. Salto alto fino, preto, meia com aquela listrinha atrás. Se a mulher se veste assim, amigo, ela tá sinalizando que é pra você seguir a listrinha... e a listrinha entra pra dentro da saia... Sacou? O sinal é claro. Não tem erro.

Mas voltando ao assunto, cara, algumas vezes eu me irrito. Mulher é um bicho bonito de se ver. Mas aí vem aquela dona que se veste com um saco de batatas, escondendo tudo. Qual é? Tá me estranhando? Perdeu o juízo? O juízo pode não ter perdido, mas tá perdendo a chance de mostrar o que tem de melhor. Tá escondendo por quê?

Essas mulheres precisam de um cara certo, tipo eu. Eu não faço desse tipo de trampo porque prefiro outras, mas um cara bom, e que sabe o que faz, resolve isso na hora. Umas flores, uma noite bacana, sexo bom, dá umas afofadas e a dona desabrocha pra vida. É simples assim. Um dia num saco de batatas, no outro recatadas com salto vermelho, no terceiro salto preto e meias com listrinha. É a moça subindo na vida e o guerreiro descobrindo onde estão a bunda e os peitos dela.

(risos)

Você pode até achar que somos canalhas, eu, o meu uísque, e essa história de ficar olhando a mulherada.

Na verdade, não é nada disso. Nosso código de ética é firme, parceiro: caiu na rede é peixe.

14 de novembro de 2012

Fragmento I

Me lembro como se fosse ontem.

Certa feita, sentei em um bar e pedi um café. Enquanto esperava, observei furtivamente o homem sentado na mesa ao lado. Tinha o rosto congestionado de emoção e lutava em vão contra as lágrimas que lentamente escorriam pelo rosto, indiferente ao que se passava à sua volta.

Tinha por volta de quarenta anos, cabelos levemente grisalhos e curtos, casado, conforme indicação da aliança. Suas mãos eram bem cuidadas, assim como o corte de cabelo. Vestia-se descontraidamente, calça jeans, camiseta de manga curta clara com motivos náuticos, calçado leve.

Seu olhar fitava o horizonte, vagando pela praia, passando pelas pedras e se dirigindo à união do céu com a água, ao fundo. Seus olhos azuis e as lágrimas que dali saiam eram uma repetição de motivos da cena que observava, alheio.

O garçom finalmente trouxe o café, distraindo-me da cena ao lado. O cheiro necessário absorveu meus sentidos por alguns instantes.

Inevitavelmente, entretanto, levantei novamente o olhar da xícara.

O homem segurava uma foto nas mãos. Eu não conseguia vê-la, mas certamente era algo importante, pois a emoção aparecia não somente no olhos, mas na forma como as mãos seguravam o pedacinho de papel.

Aquilo me intrigou. O que poderia haver na foto que o levasse às lágrimas?

Franzindo o cenho, levei a xícara aos lábios. Forte, encorpado, bom. Um sorriso escapou após o primeiro gole. Pequenos prazeres da vida, pensei cerrando os olhos.

Quando os abri, o homem fitava-me diretamente nos olhos. A intensidade do azul me pegou de surpresa e, constrangido, tentei desviar o olhar. Mas não consegui. Havia algo de magnético naquele olhar.

Segundos? Minutos? Não sei dizer. O estranho manteve o olhar cravado em mim, as lágrimas ainda escorrendo lentamente. E lentamente aquilo se tornou insuportável. A humanidade desnuda de seu olhar começou a cobrar seu preço sobre meus bem ordenados sentimentos. A falta de ar aumentou, assim como o desconforto de fitar indefinidamente um estranho em um café desconhecido.

Então aconteceu. Vinda não sei de onde, a palavra chicoteou minha mente com toda força, reverberando como um trovão: saudades. Lentamente meus olhos se arregalaram. O homem chorava de saudades!

Conforme cresceu em mim a compreensão do sentimento que perpassava a alma do estranho, meus olhos arregalaram-se mais ainda, o café esquecido sobre a mesa, o queixo caindo. Por Deus, o coração do sujeito está inundado de saudades, pensei, enquanto lutava para respirar, temendo, agora, pela vida dos meus sentimentos.

Vi a infinitude do sentimento do estranho e seu eco na humanidade de todos nós: filhos que a distância engoliu, pais que se foram para o mar e não voltaram, mães que perderam-se no tempo, amigos cujas vozes não mais faziam eco em nosso corações. Vi a infinitude da humanidade de todos nós nos olhos de um homem sofrendo de saudades...

Por fim, de súbito, nosso contato visual foi interrompido por alguém que saía do café e passou entre nós. Como a uma tábua salva-vidas, segui a pessoa com os olhos enquanto se afastava, respirando o ar que antes me faltara.

Não ousei olhar para a mesa ao lado. Tomei a xícara entre as mãos, reparando que meus dedos tremiam levemente. Tomei um gole de café, esperando o tempo passar, enquanto tentava remendar minha concha de civilidade.

Lançando, afinal, um olhar furtivo para o lado, vi o homem olhar uma última vez para a foto para então guardá-la com cuidado na carteira. Não haveria mais contato visual entre nós, suspirei aliviado. O olhar do homem voltara ao horizonte, o sentimento agora guardado no bolso.

Ele secou os olhos, chamou o garçom, pagou a conta e se foi, caminhando lentamente pela praia, o corpo mostrando a mesma saudades que os olhos antes vertiam. Segui-o com o olhar até o perder de vista, ao longe.

Fiquei sentado ainda por um longo tempo, olhando o vazio da xícara de café e tentando agora entender meus próprios sentimentos.

Não consegui ver quem estava na foto. Isso foi um segredo que o estranho levou consigo.

Mas o estranho havia deixado algo de si comigo. Havia deixado saudades. Não as dele, mas as minhas próprias, que eu havia tentado esquecer com tanto empenho.

Isso foi há muito tempo, mas lembro-me como se fosse ontem.

Nunca descobri quem estava naquela foto, mas hoje eu sei quem estaria nela, se fosse eu aquele estranho e se ela estivesse em minhas mãos...

Instantâneo XXV

Tempo de se tornar homem das cavernas, de se unir a uma matilha de iguais, adentrar o inóspito e caçar o alimento para a prole e a fêmea. E nesse ritual ancestral se renova a psiquê masculina em seus arquétipos... fui pescar...

Instantâneo XXIV

O que verão estes olhos meus quando o tempo se encarregar de varrer de mim o presente que tenho nas mãos? Verão sorrisos? Verão lágrimas? Verão o mar ou as estrelas? Verão amor? ou solidão?

O fim decerto não verão, pois nele os olhos não mais vêem e dele não quero falar.
Quero falar dos presentes bobos e fugidios ali na frente, daqueles com sorvete na mão e arranhado na canela, ou dos solenes, com um guarda-chuva.

E então? O que verão estes olhos meus quando o tempo passar, nas asas do cata-vento?

Instantâneo XXIII

Quis rimar com saudades, mas o mau humor de te deixar é maior que minha vontade de escrever.

Instantâneo XXII

E, então, acumulava saudades na algibeira, pois não havia mais o que pudesse ser feito. E conforme ela enchia, ele a encostava no ouvido, saboreando os sons de felicidade que estavam logo à frente, na primeira esquina do tempo.