{O} Tenente Flávio Araújo Júnior olhou atentamente os movimentos dos sequestradores pela luneta de seu fuzil. Por três longas horas ele e seu companheiro atirador haviam apenas observado e esperado. Por três horas eles se mantiveram imóveis, deitados sobre o teto do ônibus, sob o calor intenso do verão carioca, abraçados a seus fuzis. Três horas monitorando ininterruptamente o vai-e-vem do negociador e dos sequestradores.
Enquanto a negociação havia perdurado, sua função havia sido somente a de repassar as informações ao capitão responsável pelo penoso processo de convencer os sequestradores a se entregarem sem deixar vítimas para trás. Os dois atiradores, ou caçadores como eram chamados, haviam sido os olhos da operação, enquanto o capitão havia sido a boca e os ouvidos. “E nesse tipo de operação, parceiro, ninguém pode ser o coração.” - pensou ele, colocando o retículo de sua mira ótica sobre o nariz do sequestrador loiro.
Tudo havia mudado alguns minutos antes, quando o Comandante havia dado sinal verde para o disparo letal, depois de frustradas todas as tentativas de negociação. Agora o olhar intenso do Tenente Araújo estava focado no alvo que havia escolhido e buscava o momento ideal para efetuar o disparo. A seu lado, o Sargento Kaiser fazia o mesmo com o segundo sequestrador.
Ele lamentava profundamente o desfecho que se preparava à sua frente. Lamentava de forma tão intensa, que se recusava a pensar no que estava para fazer, a emoção ameaçando ganhar o cabo de guerra contra o dever e o treinamento.
Fechou os olhos, respirando acelerado. “Calma, cara. Se controla.” – pensou, os olhos ardendo. – “Respirar profunda e calmamente, relaxar o corpo, segurar o fuzil com firmeza, mas sem força...” – começou mentalmente a repassar a ladainha do protocolo de disparo de precisão, repetido milhares de vezes nos anos de treinamento. Sentiu o corpo relaxar e a mente lentamente esvaziar de tudo que não fosse o concentrar no disparo perfeito. As emoções em tumulto lentamente cedendo, os olhos ainda fechados.
- Prepara, zero dois, que vai ser tiro no tiro, positivo? – falou baixinho ao colega ao lado, uma nota de tristeza na voz.
- Positivo, zero um. Tiro no tiro. Visada limpa no alvo zero dois. Preparado. – respondeu o Sargento Kaiser, com voz neutra, concentrado.
Por fim, o Tenente Araújo, ou Juninho, como era conhecido pelos amigos, abriu os olhos e observou o retículo posicionar-se lentamente sobre o rosto de seu irmão de criação.
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