Sabe, eu tenho certa inveja do escritor. Quando você acaba de ler algo bonito e consistente, fica aquela sensação de sorvete por dentro e uma curiosidade de saber como é que o sujeito conseguiu juntar aquelas palavras para transmistir aquela ideia e aquele sentimento... dá falta de ar.
E a ordem... ahhh, a ordem das palavras! Como é que eu nunca pensei naquilo! Pequenas mudanças aqui e ali; aquela que deveria ir lá, agora vai aqui e vice-versa... e no final, com essas perversões do coloquialismo, a coisa toda fica com um sabor diferente, uma cor dourada, um toque acetinado... sei lá! Dá até a impressão que, para acertar o coração humano, as palavras devem possuir uma ordem diferente daquela que eu e você usamos. É como se nossa forma de sentir fosse comum e a dele não.
Aí vem a tristeza para quem tenta repetir o feito.
As palavras estão por aí, é só escolher bem na hora de escrever, que tudo pode dar certo: em vez de dizer que o cara tava na fossa, é melhor dizer que sentia uma tristeza cortante pelo amor impossível. Vê? Não é impossível.
A segunda parte é ainda mais fácil: escreva reto e deixe torto depois... não dá pra ser mais simples que isso.
Mas as palavras e as ordens seguem as marés de minha alma e aí reside meu infortúnio. Não há palavra e ordem que me permitam escrever sobre a felicidade se meu espírito não sente isso, pelo contrário, sofre em silêncio e contemplação. E não há como extrair tristeza de um dia iluminado para se escrever sobre algum tormento perdido em algum lugar distante de onde estou agora.
Talvez aí resida a força e a arte do escritor: moldar o sentimento, ainda que por um pequeno momento, para escrever hoje como se fosse ontem, e repetir o feito novamente amanhã.
Pensando sobre isso, me vejo como um ajuntador de palavras, não importa quão belas, não importa sua ordem. Um ajuntador honesto, mas ainda assim um mero ajuntador...
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