14 de março de 2012

Meu pé de limão*

Eu sempre quis ter um pé de limão na minha casa. A fruta me apraz, a cor me alegra... gosto da planta. Ter um limoeiro era uma forma de dizer que eu tinha raízes e, porque não dizer, frutos. Sim, ter o limoeiro na casa eram raízes e frutos, era ter um pedaço de terra no qual cavar um buraco e poder dizer: aqui está minha planta, aqui está minha casa.

Então um dia havia chegado o tão esperado momento: recém-casado com uma mulher que amava e dono de uma casa nova, saí para comprar limoeirozinho.

Fui no viveiro e escolhi um pequenino e frágil, mas era uma bela plantinha, com certeza daria conta do recado. Cheguei em casa com o fiapo de planta debaixo do braço e fui perscrutar o quintal em busca de um recanto tranquilo para o cidadão.... bem no fundo à esquerda parecia bom. Cavei o buraco com carinho e cuidado, adubei e chamei aquele lugar de "lar" do meu limoeiro.

As coisas andam para a frente e o tempo segue seu curso. Muitas coisas aconteceram desde que plantei o limoeiro naquele buraquinho. Problemas de vida, problemas do coração, um pouco menos de amor e um pouco mais de trabalho. Um tanto depois, com ele já mais crescido, sentei ao seu lado para conversar:

"Ó... eu sei que disse pra você que esse seria seu lar para sempre, mas eu preciso construir uma coisa aqui...", comecei, falando meio sem jeito. "Eu sei que havia prometido, mas não deu pra convencer a mulher a ser diferente. Ela disse pra eu arrancar você, mas eu disse que nem pensar... então, estou pensando no seguinte: quem sabe a gente muda você de lugar pra ali ó..." apontando para o lado direito do terreno encostado do muro. "Ali você vai ficar bem!", afirmei com a convicção de que tudo estava resolvido e tirando o peso do coração por machucar meu amigo

E assim foi feito. Agora ele não era mais somente uma plantinha. Era uma planta! Já batia no meu ombro e com certeza daria limões muito em breve. Deu certo trabalho pra mim e para o jardineiro, mas conseguimos tirá-lo do lugar onde estava e plantar no novo lar. Cuidei dele com afinco e, orgulhosamente, vi que suas folhas nem tinham murchado... ele foi valente e compreendeu sua importância. Perseverou, junto comigo, e suas raízes novamente buscaram a terra, assim como tentavam as minhas.

E lá ele ficou, enquanto a vida seguia. Seguia de modo automático, com aquela certeza amortecedora e lacônica. Seguia, diminuindo o amor. Sem ligar para meus problemas, o limoeiro cresceu e viscejou enquanto as chuvas caíram. Apesar da nuvem que agora aparecia no meu horizonte, olhava para meu limoeiro com felicidade, meu amigo verde.

Foi então que as folhas começaram a murchar e amarelar. Me lembro como se fosse ontem. Ao olhar para aqueles tons dourados no meu amigo, antes verde, meu coração espremeu e doeu. Meu limoeiro! Estava doente! Corri para perto e vi que a terra estava seca, que as chuvas tinham cessado, que ninguém cuidava dele enquanto eu estava fora. Água, água! ÁÁÁgua!! Dei de beber para meu tesouro, mas a água penetrava a terra e se perdia, se esvaía como se não existisse fundo, como se nada a segurasse a tempo do infeliz beber... me dei conta que o lar o estava matando de sede, que o lar o estava lentamente definhando.

"Ó..." comecei a conversa determinado, ignorando qualquer tentativa de discussão. "... nem pensar você morrer e me deixar aqui sozinho. Tá vendo ali ó..." falei apontando com o dedo para um espaço em frente à minha oficina, onde a grama vicejava. "É ali que você vai ficar, junto de mim e da minha oficina. Ali você vai ficar bem. Ali ficaremos bem, eu e você. Dali você nunca mais vai sair!"

E assim foi feito pela terceira vez... com força e um certo sacrifício, pois agora o limoeiro era uma planta grande, apesar de murcha. Mas o lugar escolhido foi perfeito. Eu podia vê-lo das duas janelas da minha oficina: pude vê-lo se recuperando e crescendo, pude ver suas folhas ficando novamente verdes, pude ver as primeiras flores e colher os primeiros limões, pude tomar a primeira limonada sentado à sua sombra, feliz, escorado em seu tronco. Eu e meu limoeiro lindo!

E a vida seguiu. Ao mesmo tempo que ele crescia e dava frutos, encolhia meu coração com o pesar de meu casamento, que começava a entrar em seu outono: mais sobrevida que vida, mais aparência que alimento para a alma.

Mas meu limoeiro continuava a me dar felicidade. A quantidade de flores era incrível, o cheiro, a cor, a textura. A quantidade de limões era incrível também: saborosos, grandes, cheios de suco, uma delícia cada um deles! Era como se ele dissesse para mim: "Que bom que você cuidou de mim... prestou atenção em mim, viu que eu estava tristonho e sempre arranjou um lugar novo pra eu ficar! Tome! Esse é meu presente para você." E os limões continuavam a crescer.

E foi assim que algo começou a acontecer, com ele e comigo. Com ele as folhas começaram a cair, enquanto as flores e os limões continuavam nascer e crescer, cada vez mais. Comigo as folhas começaram a cair, enquanto entrava no inverno de minha alma, o coração triste e solitário, esquecido de meu amigo. "Não me deixe! Fique comigo! Eu tenho raízes e frutos para nós dois!" dizia o limoeiro na linguagem das plantas.

Mas o tempo passou e as coisas pioraram: o esquecimento, a falta de cuidado, de atenção, de carinho. O tempo passou demasiado.

E um dia, sentado na escada que dava para o quintal, perdido em meio a pensamentos entristecidos e de despedidas, por fim me dei conta que meu amigo jazia solitário no quintal, perto da oficina onde com tanto carinho o havia plantado anos antes.

...

Por entre as brumas de meus sentimentos, vi seus galhos, altos e nus, antes majestosos, com umas poucas flores e limões restantes. Vi que meu amigo, antes lindo e cheio de vida, era agora um espelho de meu coração. Levantei e lentamente fui me sentar ao seu lado. Encostei a mão em seu tronco, sentindo a casca ressequida, seu corpo agora quase que inteiramente despido de vida.

"Você sabe que eu vou partir, não é?" falei baixinho. "Eu sei que a decisão é sua, mas porque você não fica? Porque você não fica aqui cuidando da minha oficina e a gente se encontra de vez em quando?" perguntei num sussurro, acariciando um pequeno botão de flor murcho em um galho.

E a vida segue a despeito das despedidas e separações. A despeito dos desencontros que criamos e nutrimos, ou desnutrimos. E a despeito a vida seguiu, apesar das despedidas e de minha separação, apesar de ter que deixar aquilo que considerei como sendo um dia meu. Meu pedaço de chão e meu limoeiro. Minhas raízes e meus frutos.

Pouco tempo depois soube que meu querido amigo verde tinha morrido. Tinha morrido como morrem alguns relacionamentos: sozinho no quintal, observando o tempo passar e sentindo a vida lentamente deixar de fluir. Morreu dando frutos e flores, num ato heróico de se reinventar. Morreu de tanto se doar.

Amei essa pequena planta. Minhas raízes e meus frutos. Meu pé de limão...

* Isso não é uma ficção: nem o limoeiro, nem eu e nem os diálogos, os meus pelo menos. A história de fato aconteceu como narrada.

Um comentário:

  1. E tu, querido amigo, na tua tentativa de te reinventares, distribui flores e frutos nos cantos mais distantes sem mesmo saber. Tuas raízes agora perpassam outros terrenos, nutrindo-se de outras chuvas. As flores atraem abelhas distantes que buscam no néctar a alegria condensada do dia.

    Eu, que sou teu amigo, agradeço a esse limoeiro lindo que deixou em ti uma semente mágica que, pelo visto, não para de brotar e de crescer. Obrigado pelas limonadas!

    Abraços e beijo!

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