19 de abril de 2012

Ciclo

Ele observou distraidamente a mão tremendo, enquanto segurava o garfo. "Deve ser a idade.", pensou sorrindo. "Qual era sua idade mesmo?" Franziu o cenho, tentando precisar o valor. Não lembrava direito. De uns tempos pra cá estava ficando cada vez mais difícil de lembrar as coisas, e nem o tamanho desses tempos ele lembrava direito.

O mundo havia se transformado numa névoa. A vida agora era como subir numa montanha muito alta: ficava cada vez mais difícil respirar e de vez em quando fazia muito frio; havia nuvens e neblina para todos os lados e não se sabia nem qual era a paisagem em volta; tinha-se uma lembrança e uma saudade vívida do vale: seus encantos, sua fartura e sua beleza; era muito solitário... os amigos haviam se perdido na neblina.

Mas o coração ainda batia e os olhos ainda viam assim assim. Tanto viam que ele observava curioso o balançar da sua mão segurando o garfo.

- Coma querido. A comida vai esfriar! - Disse a moça junto ao seu ouvido com um olhar terno, mas atento e forte. Ela era muito bonita, pensou ele. "Ahh se eu fosse mais jovem!" sorriu ele de leve. Ela lhe lembrava alguém, mas ele não tinha certeza de quem exatamente. Curioso! Quem seria?...

O balançar da sua mão, segurando o garfo, novamente lhe capturou o olhar. Essa sensação de solidão era tão esquisita. "Eu não sou tão velho assim pra ter perdido todos os meus amigos!" pensou se olhando no espelho do outro lado da sala. "Dá a impressão que sou o único ser vivo na face da terra." O espelho mostrava uma face enrugada; cabelos grisalhos, mais para brancos que para pretos; olhos claros e vivos; alguém na faixa dos 60 anos. O espelho sorriu de volta, mostrando dentes brancos. "Nossa, ele tem todos os dentes." e o reflexo sorriu ainda mais.

- Onde foi parar todo mundo? - perguntou alto.

- Está todo mundo aqui, papai! - respondeu a moça sentada ao seu lado, abrindo um sorriso leve, mas com o mesmo olhar atento. - Coma que a comida vai esfriar!

"Papai?!", ele olhou para ela meio surpreso. "Bem, até que fazia sentido, ela era parecida com ele." observou comparando a face do espelho com a da moça ao seu lado. "Isso! Ela é parecida com a imagem do espelho!". Engraçado, ele não lembrava direito de ter tido uma filha.

- Está todo mundo aqui? Mas eu me sinto tão sozinho.

- Você não está sozinho, papai, garanto pra você. - respondeu a moça.

Bem, ela podia garantir, mas isso não diminuía aquela solidão esquisita que ele sentia por dentro. Não sabia dizer quando ela havia começado, mas estava ali com certeza. "Sim, ele se sente bastante solitário." pensou olhando a imagem no espelho, os olhos perdendo a vida e o sorriso murchando.

- Coma querido. A comida vai esfriar! - Disse a moça sentada ao seu lado.

Ele piscou os olhos e observou distraidamente a mão tremendo, enquanto segurava o garfo. "Deve ser a idade.", pensou abrindo o sorriso. "Qual era sua idade mesmo?"...

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