9 de junho de 2013

Sobre Hiatos e Esperanças...

Era uma pessoa que gostava de finalizar uma coisa antes de começar outra. Isso tornava tudo mais simples, exceto que a vida não aceitava suas ideias, pensou, tomando a colher da mesa e mexendo o açúcar no café. Com um suspiro resignado levantou os olhos e fitou o horizonte, ao longe, onde o mar se fundia com o céu.

A vida acreditava na superposição de sentimentos e na conexão entre as vidas. Acreditava que, entre uma pincelada e outra, a tinta continuava fresca, misturando tudo, as cores, o pincel e o pintor ao tempo.

Levou a xícara aos lábios, pensando nos filhos. Hiatos.

Ele também não acreditava em hiatos, mas a vida lhe presentava com vários e variados deles. Era como se à tinta fresca fosse dado o tempo de se borrar ao seu bel prazer, tirando do pintor o poder sobre sua própria obra de arte. Algumas vezes ele se sentia como se o mundo fosse uma grande obra de Pollock, onde a gravidade e a loucura eram mais artistas que o próprio pintor. E a gravidade e a loucura exerciam seus ofícios no silêncio dos hiatos.

Esses hiatos com seus filhos feriam seu senso de estética e fluidez, das coisas encadeadas, das ideias finalizadas e das ideias iniciadas. Os hiatos eram como grandes vazios, temidos vazios, onde a ausência o levava a um desajeitado estado de esperança de que a relação ainda estaria lá, no próximo encontro. Ele nunca sabia exatamente o que receberia no próximo encontro ou como seus filhos estariam. Estariam com saúde? Estariam felizes de vir? Contentes de lhe verem novamente? Ansiosos por lhe contarem alguma novidade?... tantas e tão tênues eram as esperanças.

E ele não acreditava em esperanças. Era cético por natureza, aritmético e geométrico. Acreditava, sim, em uma coisa depois da outra. Inícios e finais, finais e inícios, números e ângulos. E na presença.

Ele tinha a fantasia, sim, era uma fantasia (pois esperança é quando vem e fantasia é quando vai), de que era presente na vida dos filhos. Era uma fantasia porque lhe era difícil pensar no conceito de presença quando agora se viam e amanhã não, um dia sim, três dias não, um final de semana aqui e ali. A ideia de presença entre as pinceladas da vida era complexa demais para seu espírito mecanicista. E de novo entrava a esperança, a esperança de que os filhos viviam sua fantasia.

Levou a xícara novamente aos lábios, sentindo os olhos pesarem com lágrimas contidas.

Não deixava de ser uma tolice pensar sobre essas coisas sem solução. Não quando a vida entendia a si própria de uma forma diferente da sua. Não quando a vida divertia-se em um estado de expressionismo abstrato frente à sua seriedade hiper-realista.

Levou a mão ao bolso e pegou a foto amassada na qual congelara-se um momento perdido do passado e os três apareciam unidos em um abraço brincalhão. Assumiu a derrota da dignidade ante a saudade e deixou as lágrimas rolarem, o café momentaneamente esquecido sobre a mesa, como esquecido ficou o bar, o céu e o mar.

Perdido nesses pensamentos, levantou os olhos marejados e viu-se observado pelo homem sentado à mesa ao lado. Tinha um olhar aturdido, como se pego de surpresa, os olhos arregalados e uma xícara de café parada no ar. Sentiu-se cansado. Fazia muito que havia deixado de se constranger por mostrar seus sentimentos em público e da reação que isso causava nas pessoas. O esforço era demasiado grande.

Uma pessoa passou entre eles, cortando os olhares. Isso o trouxe à realidade. Olhou mais uma vez a foto que tinha nas mãos e depois a guardou com carinho no bolso. Bebeu o resto de seu café, deixou algumas notas sobre a mesa, levantou-se e saiu do bar. Estava em seu direito, pelo menos, de viver os hiatos do modo que bem lhe aprouvesse e hoje seria com uma caminhada sem destino pela beira da praia.

Fim do café. Início da caminhada. Aritmética...

Respirou fundo, o ar carregado de maresia. Cheiro bom.

A passos lentos, olhou para o céu, para o mar e para as ondas, que quebravam na praia, uma após a outra, sem pausas, lambendo a areia clara. Parou e observou a sua frequência. Viu a água subindo e descendo num ritmo constante. Viu a areia, ora coberta e ora descoberta. Viu a umidade permanentemente, mesmo as ondas indo e vindo, mesmo a terra firme se aproximando e se afastando. Viu a permanência do contato entre a areia e as ondas...

Bem, talvez ele estivesse se debatendo com um modelo errado, pensando novamente nos filhos e na saudade. Teria que pensar melhor sobre isso, talvez a arte não fosse uma boa ideia, no fim das contas... mas não agora. Agora era hora da caminhada, iniciada há alguns instantes e já interrompida.

Com um suspiro, voltou a caminhar, aproveitando a companhia do mar, enquanto a vida lhe presenteava com hiatos e esperanças.


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