12 de junho de 2013

Um estudo em Matar.

Ele não compreendia a impaciência. A escolha e a espera sempre rendiam objetos melhores. Ele nunca fora impaciente. Se houve imperfeições em suas obrigações no passado, foi por inexperiência, mas nunca por impaciência. As pessoas sentiam impaciência, desejavam algo com fervor e queriam esse algo com rapidez: uma casa, um trabalho, um táxi. Ele não compreendia isso. A paciência era a chave para algo bem feito.

Ele hoje fazia um uso extremo da paciência. Conforme foi aumentando sua experiência, escolher um objeto da Obrigação passou a demandar cada vez mais trabalho, o que exigia cada vez mais paciência. A Obrigação tinha que ser perfeitamente cumprida e isso exigia um objeto perfeito.

Eis porque ele estava ali fazia mais de duas horas, esperando, nas sombras da noite. Havia encontrado o objeto perfeito: solteiro, cabelos castanhos levemente grisalhos, calvície androgenética de alto grau, rosto sem barba, olhos castanhos, óculos, um metro e setenta de altura, levemente obeso. A Obrigação. Suspirou satisfeito.

Olhou para os próprios pés, calçados com botas pesadas. Ao lado deles a ponta do bordão, que segurava com delicadeza. Era o mesmo bordão que havia escolhido anos atrás, madeira de lei, sólido e confiável, pesado e forte. Belo, pensou, acariciando a empunhadura com o dedo indicador.

Bateu de leve com a ponta do bordão na bota.

Ele demorara um pouco para aprender a usá-lo. Isso fez parte de sua inexperiência e do seu aprendizado. Nas primeiras vezes ele o havia girado rápido demais, batido com força demais, com receio de perder os objetos e não cumprir a Obrigação. Mas isso geralmente acabava em sujeira e bagunça, duas coisas que ele desgostava. E um objeto estragado tornava a Obrigação menos perfeita,  isso também o desgostava. Um objeto morto significava começar novamente. Hoje ele escolhia demoradamente seus objetos e usava o bordão com perfeição.

Bateu suavemente na bota mais uma vez.

A batida tinha que ser suave. Ele queria uma concussão, não um osso quebrado. Ele queria um objeto, não um vegetal. Por isso havia escolhido a madeira pesada. O giro do bordão tinha que ser feito com gentileza e silêncio; a pancada seca e no ponto exato, tanto do bordão quanto da cabeça. E ele havia aprendido que ela era mais eficiente no osso temporal: no ocipital o bordão geralmente fraturava o osso, o que não era seu objetivo. Osso temporal direito, esse era seu alvo.

Ouviu o carro chegando. Ficou ereto, fechou os olhos e encostou-se à parede, escondido nas sombras, os ouvidos atentos, o bordão agora seguro com firmeza ao lado. Respirou fundo, o corpo relaxado, sabendo que a espera havia terminado.

Ele estacionaria o carro na garagem, agora. Havia observado isso diversas vezes. O portão eletrônico abriu-se, o carro entrou e parou dentro da garagem sem iluminação. Agora, a rotina de sair do carro. O portão eletrônico começou a fechar. O motor foi desligado, os faróis apagados e o vidros fechados. O objeto saiu do carro e fechou a porta do motorista. Abriu a porta de trás, pegou o paletó e a valise, fechando a porta em seguida. Acionou o alarme do carro. Agora, o caminhar até a porta. O objeto moveu-se a passos rápidos, tirando o chaveiro do bolso e escolhendo a chave da porta da frente. Parou sobre o capacho, limpou os pés e inseriu a chave na fechadura. O objeto perfeito.

Ele saiu das sombras como que impulsionado por uma descarga elétrica, deu três passos rápidos e silenciosos sobre a grama, levantou o bordão com a mão direita à altura do ombro e o rodou suavemente, num arco amplo rumo à têmpora do objeto. A pancada soou como um leve estalo no quintal, enquanto o objeto largava a pasta e o paletó e desmoronava ao chão com um suspiro leve. O chaveiro ficou balançando na fechadura.

Ele baixou lentamente o bordão e ficou imóvel por vários segundos, escutando a escuridão e aguardando para ver se tudo continuaria tranquilo, como o objeto inconsciente a seus pés. Paciência, novamente.

Tudo silencioso.

Agachou-se ao lado do corpo, largou o bordão delicadamente no chão, retirou a fita adesiva cinza do bolso e rasgou um pedaço, cobrindo a boca do objeto. Em seguida, colocou as duas mãos para trás e as prendeu com fita, uma na outra. Juntou os pés e os prendeu com fita também. Trabalhou com a rapidez e eficiência. Girou a cabeça para o lado esquerdo e olhou o local da pancada. Uma marca alongada, elíptica e levemente avermelhada, sem sangue, sem laceração. Um trabalho muito bem feito, pensou satisfeito.

Pegou o bordão, levantou-se e guardou a fita novamente no bolso. Parou alguns segundos para admirar o objeto, preso a seus pés.

Sim, ele era perfeito e havia sido colhido com perfeição.

Estava pronto para cumprir com a Obrigação e a Obrigação ficaria satisfeita...

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