Colocou as coisas na mala, suspirando.
Olhou a casa à volta. Era pequena e velha: pequena para seu corpo, pequena para seu mover, velha para seu viver.
Fechou a mala, também gasta, mas ainda digna. Seus pertences eram poucos: alguns pensamentos, alguns sonhos e o resto de seu viver; uma garrafa, um livro, um anzol, uma pena e um coração.
Olhou para as botas gastas, nos pés. Era com elas que chegaria a seu destino.
Todos os demais haviam sido esquecidos, largados ou perdidos.
Olhou para o relógio: tempo de colocar os pés na estrada. Pegou a mala e virou-se para a porta; vermelha, desengonçada, velha e fechada. Podia ver o mundo por entre as frestas. Empurrou-a e ela se abriu. Assim são as portas: empurre e abra e saia de onde estiver apertado.
O sol lá fora estava forte e lhe doeu nos olhos, desacostumados ao mover e ao vento da vida. Ficou imóvel por alguns instantes, o céu azul e as nuvens sobre si.
Olhou para os dois lados, sem saber direito para onde ir... Coçou a barba por fazer... Por ali? Ou por lá?... "Por ali vai bem..." pensou, naquela decisão sem motivo ou respeito apropriado.
Socou o chapéu na cabeça e deu um passo decidido para onde escolheu. Sem olhar para trás, empurrou a porta com a mão, ouvindo-a bater às suas costas. Mais um passo decidido, rumo àquela direção.
Um suspiro. Um sorriso... Um cuspe no chão.
Mais um passo.
E outro... e outro... e outro... e outro... e foi-se.
E foi-se.
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