Jazia buliçoso, sobre o tampo da mesa escura junto à xícara de chá, o texto recém-parido de sua mente imprestável. Um amontoado de letras insensatas, rendadas à mão sobre o papel de algodão, numa tentativa infrutífera de trazer-lhes valores não cabidos. As ideias ali feitas prisioneiras eram uma aberração. Mas para seu olhar, eram suas e filhas, as muitas amantes que nunca teria. Um olhar vacilante de quem perdeu-se de si próprio no tempo.
Filhas bastardas e prostitutas, as malditas letras. Vagabundas, todas elas. Ordinárias.
Deixou o olhar, tingido com o visgo do asco, escorrer lentamente sobre o papel em direção ao fogo, que ardia na lareira de concreto.
Com um suspiro contrito, estendeu o braço na direção da lareira e empunhou o atiçador de ferro, enegrecido pelos muitos fogos que ajudou a criar e destruir, e pelos muitos textos que trespassou e feriu. Com lentidão impossível, elevou a ponta do atiçador em direção ao teto, iluminado pelo fogo, observando sua sombra alongar-se e entremear-se com a luz, como uma espada.
Olhou novamente para o papel.
Então, num movimento insuspeito, girou o atiçador pelo ar com toda a força que seu braço lhe permitiu e cravou-o no meio das folhas, com um barulho surdo, sentindo o metal bater com força contra a madeira do tampo.
Antes que seu ser pudesse se recuperar do choque de ver as palavras laceradas no meio do papel, torceu o atiçador com força, arrancou-o da madeira e girou-o num grande arco na direção do fogo, levando consigo as folhas na direção do calor intenso.
Rapidamente as belas folhas foram envoltas no manto de chamas.
- Queimem no inferno, desgraçadas! - pensou.
- Queimem. No. Inferno. Meus. Amores. - murmurou, cambaleando de encontro à mesa e depois indo ao chão com um baque, enquanto a xícara rolava sobre o tampo e o chá escorria sobre a única folha que restara do texto.
O chá escuro passeou indolente por sobre o tampo e por entre as frases. Manchou as palavras "gozo", "saciada" e "vulva", desviou-se do buraco deixado pelo atiçador e chegou à borda da mesa. Titubeou por alguns instantes e então, gentilmente, gotejou-se sobre a batina do homem que chorava a seus pés.
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