12 de abril de 2012

Fragmento Censurado I

Antes de abrir os olhos ele já estava acordado. Acordado e pensando na vida, de olhos bem fechados.

E mesmo com os olhos fechados ele podia ver a marca do tapa, do beijo e do gozo. Podia sentir a devassidão da noite no corpo daquela mulher, jogada na cama ao seu lado. Devassidão daquelas que ele somente havia pensado em vagabundas, putas assanhadas e canalhas da pior espécie; coisas impuras e medonhas; coisas proibidas e desejadas...

Mesmo de olhos fechados, podia ver a si mesmo com um sorriso de canto de lábio. O sorriso fácil de quem fez algo errado dar certo naquela pilantragem escondida, que toda criança apronta aqui e ali. "Vagabundo...", pensou sorrindo, agora abertamente, e lembrando com mais clareza da robustez de peitos, da maciez de bundas e do assanhamento de mãos.

Abriu lentamente os olhos, fixando a vista embaçada no tampo da cômoda, que ainda marcava a noite empunhando as taças sujas de vinho, borradas de dedos e batom. A garrafa vazia, ao lado, era a prova da vadiagem: tombada, vazia, meio derramada, meio consumida, usada até o fim e deixada de lado.

Suspirou, passando a mão nos olhos. "Ai, que vida!", pensou. Espreguiçou o corpo na cama de lençóis sujos e amassados.

Podia sentir a mulher ali, ao seu lado, na cama. Sabia que estava nua, assim como ele. Nenhum dos dois teve condições de se vestir quando a noite finalmente acabou. Girou a cabeça e olhou para o corpo dela.

Estava de costas para ele; meio enroscada no lençol, as costas de fora e parte da bunda aparecendo, as pernas longas escondidas; os cabelos desgrenhados,  jogados por cima do travesseiro e do rosto; a pele marcada, suada e suja de vinho e de corpo.

O sorriso aumentou ainda mais, apesar do cansaço. "Gostosa! Como pode você e uma noite como a de ontem?!" pensou, sentindo os olhos pesarem novamente.

Observou-a por alguns instantes, enquanto ela respirava profunda e calmamente, mergulhada num sono sem memória, ou culpa.

- Mulher! - falou alto cutucando a bunda exposta.

O corpo estremeceu levemente ao contato súbito, mas sem sair do mundo dos sonhos.

- Mulher! - falou mais uma vez alto, batendo de forma tosca com a mão na bunda imóvel.

- Humm?! - resmungou ela, meio bêbada, meio usada.

- Amo você, porra... - falou ele, ainda sorrindo, mas relaxando o corpo, os olhos fechando, escorregando para o esquecimento da vadiagem; a mão agora encostada nas costas dela, esquecida.

Ele não viu, mas ela abriu um sorriso, escondido entre os cabelos e o travesseiro...

Um comentário:

  1. Deu até aquela vontade de dormir depois do gozo! Demais, cara, como tudo tem que ser ;^)

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