5 de julho de 2013

A Consulta.

Entrei no consultório com aquele desconforto típico dos acometidos de enfermidades. Afinal, diga-me se não esse é o motivo de se ir a um consultório: sentir-se desconfortável. Olhei para os lados tentando agrupar algumas memórias de como se portar em público em um lugar desses, sentindo o mau humor me corroer as entranhas. Vi uma secretária ao balcão e para lá me dirigi: ali deveria existir uma resposta.

- Bom dia, senhor! – comprimentou-me a atendente, com um sorriso condescendente nos lábios.
- Bom dia. – resmunguei sorumbático.
- O senhor tem consulta marcada?
- Sim. 10:45.
- Identidade, por favor. – peguei a carteira do bolso, retirei a identidade e a entreguei, esperando a confirmação de que eu era eu mesmo. – Sim, aqui está. O senhor pode aguardar um pouco, por favor? O doutor já vai lhe atender. - disse ela entregando-me a carteira.
“Jura?” pensei. – Obrigado. – respondi com o cenho franzido.

Guardei a identidade, coloquei a carteira no bolso e me voltei para ver se havia algum lugar disponível para sentar. Ao canto, ao lado das revistas, havia uma última cadeira vaga. “É isso aí.” Dirigi-me para lá, sentei-me, peguei uma revista e bufei, contrafeito com a espera.

Fechei os olhos por alguns segundos, tentando relaxar. Uma respiração profunda, duas, três. Pisquei os olhos, sentindo o papel da revista entre os dedos. Mais calmo, suspirei e me dei conta, com certa curiosidade, de como o papel entre os dedos me remetia a memórias longínquas, a uma infância há muito vivida e em parte esquecida.

Sempre gostei de ler, sabe? Desde a mais tenra infância já lia revistinhas e pequenos livros de história, placas de trânsito e anúncios de jornal, qualquer coisa, enfim, que tivesse letras.

A rabugice diminuiu de leve nos lábios enquanto minha mente me fornecia alguns reprises infantis. Folhei de leve a revista, observando as figuras.

Recordei, então, de quando a leitura invadiu o banheiro. Em algum momento de minha vida, sentar no vaso sanitário para “ir aos pés”, como dizia minha mãe, tornou-se fonte de sabedoria e informação. Sempre havia algo para ler ao lado da privada: uma revista, uma história em quadrinhos, um livro, ou qualquer coisa similar deixada pelos meus pais ou irmãs. Era um momento de alívio e entretenimento e, de certa forma, a leitura ajudava o corpo a encontrar algum tipo de ritmo primal, que tornava as coisas mais fáceis, como se a mente, entretida pelo ato de ler, deixasse o corpo à vontade. Enfim, as coisas iam bem na presença de um livro ou dois.

Tirei os olhos da revista, olhando para a luz do consultório e relembrando o que havia aprendido nesses momentos de contemplação: história, geografia, literatura, ciências, fofocas, aventuras, dramas e xadrez. De fato, acho que devo muito de minha cultura à existência do vaso sanitário.

"Mas nem tudo foram flores", lembrei com um estremecimento.

Um dia, sentei-me no vaso com certa pressa, devo dizer, daquelas pressas inadiáveis que nos acometem, aqui e ali. Imediatamente me dei conta, estarrecido, de que não havia nada para ler. Olhei para os lados aparvalhado, a ordem subvertida, sem saber direito o que fazer, sem conseguir deixar ir o peso que me havia trazido até ali. Tentei fechar os olhos e esquecer a maldita leitura, mas tudo congestionou-se, como que esperando um sinal de tráfego verde. E o sinal verde eram letras num papel. Sentindo se avolumar o absurdo da situação, num átimo de desespero abri rapidamente uma gaveta do armário debaixo da pia e peguei a primeira coisa que minha mão tocou: um rolo de papel higiênico. "Não!! Letras... preciso de letras!" pensei, jogando o rolo longe e sentindo o suor brotar na testa. Enfiei a mão voraz novamente na gaveta e dessa vez meus dedos de lá sacaram, com certa violência devo dizer, uma caixa de pasta de dente.

As letras eram minúsculas, mas bastaram. Doces palavras, aquelas incompreensíveis "Sodium Lauryl Sulfate", "Propylene Glycol" e "Sodium Fluoride". Quando, afinal, cheguei em "Limonene e Cinamaldeído" os ritmos naturais haviam sido reconquistados e meu corpo leve jazia esgotado sobre o vaso sanitário. Foi nesse dia que constatei que ler, enquanto satisfazia uma das necessidades mais fundamentais do homem, havia se tornado um vício. Nesse dia também descobri a finalidade primeira dos rótulos de remédios, etiquetas de xampu e embalagens de sabonetes.

Fechei os olhos, recordando o dia fatídico com desgosto.

Resolvido a nunca mais passar por essa situação bizarra, passei a checar com certa antecedência se havia livros ou revistas no banheiro que usava em casa. Conferia as gavetas para ver se, numa emergência, haveria alguma embalagem com instruções ou até mesmo um termômetro ou balança com suas escalas imutáveis, não importava muito: se havia letras, tudo estava em ordem. Fora de casa as coisas eram muito piores, mas não gosto de me lembrar disso.

O tempo passou e a infância deu lugar à adolescência... e à miopia.

Míopes não enxergam bem as coisas que estão longe, mas enxergam muito bem as coisas de perto. Tive que ir ao oftalmologista e passei a usar óculos, para bem de poder passar de ano na escola. Nessa época descobri duas coisas. Primeiro que conseguia ler perfeitamente até as menores letras imagináveis, como as presentes nas bulas de remédios. Segundo que não conseguia operar os intestinos adequadamente se estivesse usando óculos. Nunca descobri o motivo. Talvez algum chinês astucioso fosse capaz de averiguar que, pela pressão do óculos em algum ponto de Do-In, meus intestinos se recusavam a funcionar. Vai entender. Era igual super-herói: para as coisas acontecerem, tinha que me livrar dos óculos. A sinergia da miopia com as tripas foi, para mim, uma descoberta tão importante quanto a invenção do telefone.

E assim seguiu minha vida íntima, nesse equilíbrio precário entre a cultura e o vaso sanitário, do mesmo modo que a insulina para o diabetes.

Mas tudo o que é bom dura pouco, engorda ou faz neném, como me disse uma namorada uma vez.

Com o inexorável passar dos anos, meus olhos lentamente se cansaram das minúsculas letras. Inicialmente eu ainda as via, ainda que borradas. Depois, porém, tive que começar a afastar a embalagem de pasta de dentes a fim de identificar os símbolos, que corriam para lá e para cá, se embaralhando uns aos outros como um bando de formigas epiléticas. Por fim, nem colocando a caixa sobre os pés, no chão, eu conseguia ler as letras menores. Conseguia, evidentemente, ler a palavra "Colgate", afinal ela tinha dez centímetros de comprimento e eu não estava cego. Mas, aparentemente, ler repetidas vezes a mesma palavra era igual recitar um mantra do mal e meus intestinos simplesmente adotavam alguma postura contorcida de yoga e nada mais acontecia. Subitamente as pastas de dente, sabonetes, remédios e xampus haviam deixado de ser oásis e portos seguros.

Passei a mão na testa, como que tentando apagar a lembrança de como essa descoberta havia pressagiado tempos difíceis.

E isso foi somente o início do problema. Lentamente o universo de letras começou a borrar e os temores de infância passaram a se avolumar no horizonte como uma tempestade agoniante, como um céu cheio de cólicas. Os primeiros a tombar em combate contra a falta de visão foram os remédios e pastas de dente, seguidos pelo creme hidratante e as instruções do barbeador. E o rastro de destruição avançou com fúria avassaladora: classificados, livros de bolso, meus livros de xadrez, revistas, tudo sendo lentamente engolido pela lesma do borrão.

Quando finalmente minha incapacidade de leitura atingiu a dimensão das chamadas de manchetes de primeira página do jornal, me dei conta de que estava de fronte à ruína de uma instituição que antes pensei ser eterna: a paz entre o corpo e a mente, criada pela leitura ao vaso sanitário.

Providências tinham que ser tomadas, urgentemente.

Encostei a cabeça na parede do consultório, suspirando, tirei os óculos e esfreguei os olhos. "Traidores!" pensei, infeliz.

- Senhor! - Abri os olhos e vi a atendente acenando. - O doutor vai lhe atender agora. - disse ela.

Larguei a revista na mesa lateral, levantei-me da cadeira e me dirigi lentamente à porta entreaberta que ela me indicava. Abri a porta e entrei, fechando-a atrás de mim. Caminhei até a mesa e me sentei com alguma dificuldade na cadeira á sua frente. O doutor  ("Karl Steichen - Oftalmologista", diria a plaquinha sobre a mesa, se eu a conseguisse ler sem os óculos) me olhava com curiosidade medicinal. Quando me aquietei, ele perguntou:

- Então! O que posso fazer por você?

Lentamente coloquei os óculos sobre o nariz e o encarei com um olhar atormentado.

- Estou com prisão de ventre, doutor.

12 de junho de 2013

Um estudo em Matar.

Ele não compreendia a impaciência. A escolha e a espera sempre rendiam objetos melhores. Ele nunca fora impaciente. Se houve imperfeições em suas obrigações no passado, foi por inexperiência, mas nunca por impaciência. As pessoas sentiam impaciência, desejavam algo com fervor e queriam esse algo com rapidez: uma casa, um trabalho, um táxi. Ele não compreendia isso. A paciência era a chave para algo bem feito.

Ele hoje fazia um uso extremo da paciência. Conforme foi aumentando sua experiência, escolher um objeto da Obrigação passou a demandar cada vez mais trabalho, o que exigia cada vez mais paciência. A Obrigação tinha que ser perfeitamente cumprida e isso exigia um objeto perfeito.

Eis porque ele estava ali fazia mais de duas horas, esperando, nas sombras da noite. Havia encontrado o objeto perfeito: solteiro, cabelos castanhos levemente grisalhos, calvície androgenética de alto grau, rosto sem barba, olhos castanhos, óculos, um metro e setenta de altura, levemente obeso. A Obrigação. Suspirou satisfeito.

Olhou para os próprios pés, calçados com botas pesadas. Ao lado deles a ponta do bordão, que segurava com delicadeza. Era o mesmo bordão que havia escolhido anos atrás, madeira de lei, sólido e confiável, pesado e forte. Belo, pensou, acariciando a empunhadura com o dedo indicador.

Bateu de leve com a ponta do bordão na bota.

Ele demorara um pouco para aprender a usá-lo. Isso fez parte de sua inexperiência e do seu aprendizado. Nas primeiras vezes ele o havia girado rápido demais, batido com força demais, com receio de perder os objetos e não cumprir a Obrigação. Mas isso geralmente acabava em sujeira e bagunça, duas coisas que ele desgostava. E um objeto estragado tornava a Obrigação menos perfeita,  isso também o desgostava. Um objeto morto significava começar novamente. Hoje ele escolhia demoradamente seus objetos e usava o bordão com perfeição.

Bateu suavemente na bota mais uma vez.

A batida tinha que ser suave. Ele queria uma concussão, não um osso quebrado. Ele queria um objeto, não um vegetal. Por isso havia escolhido a madeira pesada. O giro do bordão tinha que ser feito com gentileza e silêncio; a pancada seca e no ponto exato, tanto do bordão quanto da cabeça. E ele havia aprendido que ela era mais eficiente no osso temporal: no ocipital o bordão geralmente fraturava o osso, o que não era seu objetivo. Osso temporal direito, esse era seu alvo.

Ouviu o carro chegando. Ficou ereto, fechou os olhos e encostou-se à parede, escondido nas sombras, os ouvidos atentos, o bordão agora seguro com firmeza ao lado. Respirou fundo, o corpo relaxado, sabendo que a espera havia terminado.

Ele estacionaria o carro na garagem, agora. Havia observado isso diversas vezes. O portão eletrônico abriu-se, o carro entrou e parou dentro da garagem sem iluminação. Agora, a rotina de sair do carro. O portão eletrônico começou a fechar. O motor foi desligado, os faróis apagados e o vidros fechados. O objeto saiu do carro e fechou a porta do motorista. Abriu a porta de trás, pegou o paletó e a valise, fechando a porta em seguida. Acionou o alarme do carro. Agora, o caminhar até a porta. O objeto moveu-se a passos rápidos, tirando o chaveiro do bolso e escolhendo a chave da porta da frente. Parou sobre o capacho, limpou os pés e inseriu a chave na fechadura. O objeto perfeito.

Ele saiu das sombras como que impulsionado por uma descarga elétrica, deu três passos rápidos e silenciosos sobre a grama, levantou o bordão com a mão direita à altura do ombro e o rodou suavemente, num arco amplo rumo à têmpora do objeto. A pancada soou como um leve estalo no quintal, enquanto o objeto largava a pasta e o paletó e desmoronava ao chão com um suspiro leve. O chaveiro ficou balançando na fechadura.

Ele baixou lentamente o bordão e ficou imóvel por vários segundos, escutando a escuridão e aguardando para ver se tudo continuaria tranquilo, como o objeto inconsciente a seus pés. Paciência, novamente.

Tudo silencioso.

Agachou-se ao lado do corpo, largou o bordão delicadamente no chão, retirou a fita adesiva cinza do bolso e rasgou um pedaço, cobrindo a boca do objeto. Em seguida, colocou as duas mãos para trás e as prendeu com fita, uma na outra. Juntou os pés e os prendeu com fita também. Trabalhou com a rapidez e eficiência. Girou a cabeça para o lado esquerdo e olhou o local da pancada. Uma marca alongada, elíptica e levemente avermelhada, sem sangue, sem laceração. Um trabalho muito bem feito, pensou satisfeito.

Pegou o bordão, levantou-se e guardou a fita novamente no bolso. Parou alguns segundos para admirar o objeto, preso a seus pés.

Sim, ele era perfeito e havia sido colhido com perfeição.

Estava pronto para cumprir com a Obrigação e a Obrigação ficaria satisfeita...

9 de junho de 2013

Sobre Hiatos e Esperanças...

Era uma pessoa que gostava de finalizar uma coisa antes de começar outra. Isso tornava tudo mais simples, exceto que a vida não aceitava suas ideias, pensou, tomando a colher da mesa e mexendo o açúcar no café. Com um suspiro resignado levantou os olhos e fitou o horizonte, ao longe, onde o mar se fundia com o céu.

A vida acreditava na superposição de sentimentos e na conexão entre as vidas. Acreditava que, entre uma pincelada e outra, a tinta continuava fresca, misturando tudo, as cores, o pincel e o pintor ao tempo.

Levou a xícara aos lábios, pensando nos filhos. Hiatos.

Ele também não acreditava em hiatos, mas a vida lhe presentava com vários e variados deles. Era como se à tinta fresca fosse dado o tempo de se borrar ao seu bel prazer, tirando do pintor o poder sobre sua própria obra de arte. Algumas vezes ele se sentia como se o mundo fosse uma grande obra de Pollock, onde a gravidade e a loucura eram mais artistas que o próprio pintor. E a gravidade e a loucura exerciam seus ofícios no silêncio dos hiatos.

Esses hiatos com seus filhos feriam seu senso de estética e fluidez, das coisas encadeadas, das ideias finalizadas e das ideias iniciadas. Os hiatos eram como grandes vazios, temidos vazios, onde a ausência o levava a um desajeitado estado de esperança de que a relação ainda estaria lá, no próximo encontro. Ele nunca sabia exatamente o que receberia no próximo encontro ou como seus filhos estariam. Estariam com saúde? Estariam felizes de vir? Contentes de lhe verem novamente? Ansiosos por lhe contarem alguma novidade?... tantas e tão tênues eram as esperanças.

E ele não acreditava em esperanças. Era cético por natureza, aritmético e geométrico. Acreditava, sim, em uma coisa depois da outra. Inícios e finais, finais e inícios, números e ângulos. E na presença.

Ele tinha a fantasia, sim, era uma fantasia (pois esperança é quando vem e fantasia é quando vai), de que era presente na vida dos filhos. Era uma fantasia porque lhe era difícil pensar no conceito de presença quando agora se viam e amanhã não, um dia sim, três dias não, um final de semana aqui e ali. A ideia de presença entre as pinceladas da vida era complexa demais para seu espírito mecanicista. E de novo entrava a esperança, a esperança de que os filhos viviam sua fantasia.

Levou a xícara novamente aos lábios, sentindo os olhos pesarem com lágrimas contidas.

Não deixava de ser uma tolice pensar sobre essas coisas sem solução. Não quando a vida entendia a si própria de uma forma diferente da sua. Não quando a vida divertia-se em um estado de expressionismo abstrato frente à sua seriedade hiper-realista.

Levou a mão ao bolso e pegou a foto amassada na qual congelara-se um momento perdido do passado e os três apareciam unidos em um abraço brincalhão. Assumiu a derrota da dignidade ante a saudade e deixou as lágrimas rolarem, o café momentaneamente esquecido sobre a mesa, como esquecido ficou o bar, o céu e o mar.

Perdido nesses pensamentos, levantou os olhos marejados e viu-se observado pelo homem sentado à mesa ao lado. Tinha um olhar aturdido, como se pego de surpresa, os olhos arregalados e uma xícara de café parada no ar. Sentiu-se cansado. Fazia muito que havia deixado de se constranger por mostrar seus sentimentos em público e da reação que isso causava nas pessoas. O esforço era demasiado grande.

Uma pessoa passou entre eles, cortando os olhares. Isso o trouxe à realidade. Olhou mais uma vez a foto que tinha nas mãos e depois a guardou com carinho no bolso. Bebeu o resto de seu café, deixou algumas notas sobre a mesa, levantou-se e saiu do bar. Estava em seu direito, pelo menos, de viver os hiatos do modo que bem lhe aprouvesse e hoje seria com uma caminhada sem destino pela beira da praia.

Fim do café. Início da caminhada. Aritmética...

Respirou fundo, o ar carregado de maresia. Cheiro bom.

A passos lentos, olhou para o céu, para o mar e para as ondas, que quebravam na praia, uma após a outra, sem pausas, lambendo a areia clara. Parou e observou a sua frequência. Viu a água subindo e descendo num ritmo constante. Viu a areia, ora coberta e ora descoberta. Viu a umidade permanentemente, mesmo as ondas indo e vindo, mesmo a terra firme se aproximando e se afastando. Viu a permanência do contato entre a areia e as ondas...

Bem, talvez ele estivesse se debatendo com um modelo errado, pensando novamente nos filhos e na saudade. Teria que pensar melhor sobre isso, talvez a arte não fosse uma boa ideia, no fim das contas... mas não agora. Agora era hora da caminhada, iniciada há alguns instantes e já interrompida.

Com um suspiro, voltou a caminhar, aproveitando a companhia do mar, enquanto a vida lhe presenteava com hiatos e esperanças.


7 de junho de 2013

2013 - VI - 07

Nossas qualidades nunca são perenes. É uma tolice pensar dessa forma. Num dia você será apreciado por elas e noutro elas serão os alvos de pedras alheias. Em um dia as pessoas se apaixonarão por elas para, num segundo, dizer que lhe odeiam pelos mesmos motivos.

E nisso fica a lição de que não se deve ponderar sobre nossas qualidades com base nos humores e sentimentos volúveis de terceiros.

22 de abril de 2013

Fragmento Censurado V

"Vim aqui escrever escondido, tomando a precaução de não ser visto enquanto trilhava o caminho pela internet. Cliques aleatórios do mouse cobriram meus rastros e a ninguém será possível reconstruir a lógica bizarra que me levou a essa postagem. Portanto estamos a sós, você e eu. Ninguém com você e ninguém comigo, só nós dois. Nosso momento e nosso lugar."

Ouvi um ruído... parei de digitar, o coração parando um instante para titubear em sua profissão. Olhei para os lados, ouricei as orelhas e ouvidos, pelos e unhas... fiquei uns instantes parado, apenas respirando de leve, as mãos acima do teclado, dedos tremendo.

O tempo passou.

"Não foi nada", pensei comigo.

Com um suspiro voltei a atenção ao notebook.

"Faz tempo que não apareço. Sinto sua falta. E você? Sente a minha? Aposto que você nem lembra mais de mim." Abri um sorriso. Frase idiota e sentimental. <del> <del> <del>

"Então? O que vai ser hoje? Putaria?... É, putaria cai bem pra caralho com meu humor de hoje. Nossa, velho! Estou tendo umas ideias bem malucas de uns tempos pra cá, você nem acreditaria."

Abri um sorriso, fechei os olhos e deixei entreabrir-se a porta para o voo imaginário que me lançava num mundo de perversão privada, numa festa onde só entravam convidados...

"Ela estava nua na cama, o cabelo jogado sobre o rosto, as pernas delicadas entreabertas e os braços esticados ao lado do corpo. Eu via seus olhos por entre os fios de cabelo. Ela sabia o que a aguardava. Seu corpo estava tenso de expectativa, os punhos fechados, os lábios entreabertos."

"É, isso foi um bom começo!" pensei sorrindo.

"Peguei a algema de couro nas mãos, os dedos sentindo o couro macio da parte interna e o fecho duro por fora. Me aproximei da cama e segurei seu pulso delicado. Sem tirar os olhos dos dela, envolvi o pulso com a algema, ajustando lentamente a correia do fecho. Seus olhos estavam imóveis, grudados nos meus, mas sua respiração estava acelerando. Fechei a algema e deitei o braço novamente na cama."

Um gole de uísque caía bem agora. Peguei o copo da cristaleira, a garrafa de Dalmore. Puxando a rolha, ouvi o espoucar suave. Inclinei a garrafa e observei o líquido dourado escorrer para dentro do copo. Porra de uísque bom.

"Desviei levemente o olhar, observando a algema de coxa sobre a cômoda. Abri um leve sorriso, antecipando o momento que o braço estaria preso à perna."

Porta se abrindo, passos, porta se fechando, chaves sendo jogadas na mesa, bolsa, sapatos de salto, passos, passos.

Meu cérebro entumescido demorou sinistros segundos para processar a informação do mundo exterior, perdido na contemplação da cena erótica que pairava em frente a meus olhos.

PASSOS!

Meus olhos abriram tão rápido que quase senti as pálpebras se chocando com a testa, os olhos quase saltaram da órbita.

FUDEU!

Muda de tela, muda de tela... rápido animal! MUDA DE TELA!!! Os dedos chocando-se uns contra os outros.

O rosto apareceu na porta.

Fechei a tela do notebook com uma pancada.

- Oi bem! Tudo tranquilo?

- Tudo! Tudo ótimo! - forcei um sorriso, enquanto escondia o copo de uísque debaixo da mesa.

- tem certeza que está tudo bem?

- Claro, tudo tranquilo! - Garanti mantendo o sorriso.

- O que você estava fazendo aí escondido?

- Escondido? Ah, nada. Escrevendo uma mensagem para mamãe. - O sorriso agora doendo no rosto.

Ela me olhou por alguns segundos, hesitando.

- Certo então. Vou trocar de roupa para jantarmos, ok? Não me demoro. - disse ela com um sorriso.

O rosto sumiu.

"Foi por pouco dessa vez." pensei, olhando com tristeza para o uísque, que agora seria lançado impiedosamente pela janela.

Fechei os olhos, observando silenciosamente a festa animada, que agora corria solta e feroz à distância.

Abri os olhos, suspirando.

Levantei e abri a janela. Olhei mais uma vez para o líquido dourado no copo que tinha nas mãos...

22 de dezembro de 2012

Casamento...

Nada mais natural que querer viver ao lado de quem é um pedaço de mim, que estava faltando. Aquele pedaço que enquanto estou quente, está com frio. Aquele pedaço que enquanto leio Pirata, lê Dostoiévski  Aquele pedaço que enquanto eu tomo limonada, toma Pinot Noir. Aquele pedaço que respira no mesmo ritmo que eu, enquanto a gente se beija. Aquele pedaço loiro de mim, perdido e reencontrado.

Nada mais natural que querer compartilhar a vida com alguém que é da mesma altura que eu, assim o passo fica igual, a mão relaxada, a jornada mais fácil, o banco do carro no mesmo lugar e o coração feliz com a inteligência e fluidez do carinho.

Nada mais natural que querer compartilhar a vida com alguém que sente sobre sentimento do mesmo modo, e na mesma intensidade, que eu. Alguém que acredita que compartilhar a vida é nada menos que isso.

Compartilhar a vida não pode ser menos que isso.

Os opostos se atraem, dizem, mas penso que somente os iguais são capazes de se entender o suficiente para se amarem. Igual, como um pedaço de mim que faltava.

E nesse pedaço de mim, que reencontrei em você, vejo o partilhar da minha vida.

Quer casar comigo?

15 de novembro de 2012

Canalha

Eu gosto de sentar e observar as mulheres. Faço isso já há muito tempo, aqui e ali, perdido na noite ou no dia, de preferência na noite. Gosto especialmente de ficar sentado em uma mesa de bar observando as mulheres passarem, como agora. Pra acompanhar, uísque, sempre, cowboy, copo quadrado, transparente, no qual posso ver claramente a cor dourada do meu colega. Unidos, eu e o uísque, formamos uma dupla imbatível.

Mas algumas vezes eu me irrito, nessa parada de observar. Não suporto, por exemplo, ver mulheres que se prendem em si mesmas. Acredito firmemente na expressão do sexo. Sexo é mulher, e se é mulher, tenho que saber onde estão os peitos e a bunda. Aí vem o problema: nem sempre é possível descobrir onde haviam parado os peitos ou as bundas de algumas mulheres... e isso é irritante.

Observar mulheres é uma arte, irmão. Funciona assim: primeiro você olha para os pés e os sapatos da dona.  Esquece a bunda e os peitos. Os sapatos são importantes. Isso diz muito sobre o que está mais pra cima. Dizem que a alma de uma mulher se vê pelo sapato e bem poucas mulheres sabem dessa verdade. E reza pra elas continuarem a não saber disso, cara, porque é sempre por ali que você pega a mulher pelo pé. 

Algumas vezes, por exemplo, você vê aquela mulher recatada, santinha e arrumadinha, mas ela calça um sapato de salto vermelho... Meu irmão, isso é o diabo da Tasmânia dentro de um quarto fechado! Se você resolver sair com uma dessas, leva extintor de incêndio porque a parada é sinistra. Se você ver uma dessas, pra encarar tem que ter segurança no taco, irmão.

De outras vezes, você vê aquela mulher toda gata, produzidona, cheia de firula, mas uma sandalhinha chinfrim  os pés meio virados pra dentro... dá até pra imaginar as unhas mal feitas e, talvez, alguma pereba... nem vale o tempo de olhar uma segunda vez. Mulher que não cuida do pé, não cuida do resto. Se não cuida do resto, tô fora.

Enfim, companheiro... sapato tem tudo a ver com bundas e peitos, entendeu? Pode acreditar no que estou falando.

Roupa, por outro lado, não quer dizer nada. Já ouvi falar de muita mulher recatada e que se veste sem chamar a atenção, mas que na hora H arranca os ossos do amigo na cama... e de outras que mostram tudo, mas não dão nada pra ninguém. Tá necessitado? Fala com a Cruz Vermelha, cidadão, porque daquele mato não sai coelho.

Esses truques você só aprende numa mesa de bar, colega, tomando uísque... apreciando a paisagem.

Como todo predador de respeito, tenho minhas predileções. Salto alto fino, preto, meia com aquela listrinha atrás. Se a mulher se veste assim, amigo, ela tá sinalizando que é pra você seguir a listrinha... e a listrinha entra pra dentro da saia... Sacou? O sinal é claro. Não tem erro.

Mas voltando ao assunto, cara, algumas vezes eu me irrito. Mulher é um bicho bonito de se ver. Mas aí vem aquela dona que se veste com um saco de batatas, escondendo tudo. Qual é? Tá me estranhando? Perdeu o juízo? O juízo pode não ter perdido, mas tá perdendo a chance de mostrar o que tem de melhor. Tá escondendo por quê?

Essas mulheres precisam de um cara certo, tipo eu. Eu não faço desse tipo de trampo porque prefiro outras, mas um cara bom, e que sabe o que faz, resolve isso na hora. Umas flores, uma noite bacana, sexo bom, dá umas afofadas e a dona desabrocha pra vida. É simples assim. Um dia num saco de batatas, no outro recatadas com salto vermelho, no terceiro salto preto e meias com listrinha. É a moça subindo na vida e o guerreiro descobrindo onde estão a bunda e os peitos dela.

(risos)

Você pode até achar que somos canalhas, eu, o meu uísque, e essa história de ficar olhando a mulherada.

Na verdade, não é nada disso. Nosso código de ética é firme, parceiro: caiu na rede é peixe.

14 de novembro de 2012

Fragmento I

Me lembro como se fosse ontem.

Certa feita, sentei em um bar e pedi um café. Enquanto esperava, observei furtivamente o homem sentado na mesa ao lado. Tinha o rosto congestionado de emoção e lutava em vão contra as lágrimas que lentamente escorriam pelo rosto, indiferente ao que se passava à sua volta.

Tinha por volta de quarenta anos, cabelos levemente grisalhos e curtos, casado, conforme indicação da aliança. Suas mãos eram bem cuidadas, assim como o corte de cabelo. Vestia-se descontraidamente, calça jeans, camiseta de manga curta clara com motivos náuticos, calçado leve.

Seu olhar fitava o horizonte, vagando pela praia, passando pelas pedras e se dirigindo à união do céu com a água, ao fundo. Seus olhos azuis e as lágrimas que dali saiam eram uma repetição de motivos da cena que observava, alheio.

O garçom finalmente trouxe o café, distraindo-me da cena ao lado. O cheiro necessário absorveu meus sentidos por alguns instantes.

Inevitavelmente, entretanto, levantei novamente o olhar da xícara.

O homem segurava uma foto nas mãos. Eu não conseguia vê-la, mas certamente era algo importante, pois a emoção aparecia não somente no olhos, mas na forma como as mãos seguravam o pedacinho de papel.

Aquilo me intrigou. O que poderia haver na foto que o levasse às lágrimas?

Franzindo o cenho, levei a xícara aos lábios. Forte, encorpado, bom. Um sorriso escapou após o primeiro gole. Pequenos prazeres da vida, pensei cerrando os olhos.

Quando os abri, o homem fitava-me diretamente nos olhos. A intensidade do azul me pegou de surpresa e, constrangido, tentei desviar o olhar. Mas não consegui. Havia algo de magnético naquele olhar.

Segundos? Minutos? Não sei dizer. O estranho manteve o olhar cravado em mim, as lágrimas ainda escorrendo lentamente. E lentamente aquilo se tornou insuportável. A humanidade desnuda de seu olhar começou a cobrar seu preço sobre meus bem ordenados sentimentos. A falta de ar aumentou, assim como o desconforto de fitar indefinidamente um estranho em um café desconhecido.

Então aconteceu. Vinda não sei de onde, a palavra chicoteou minha mente com toda força, reverberando como um trovão: saudades. Lentamente meus olhos se arregalaram. O homem chorava de saudades!

Conforme cresceu em mim a compreensão do sentimento que perpassava a alma do estranho, meus olhos arregalaram-se mais ainda, o café esquecido sobre a mesa, o queixo caindo. Por Deus, o coração do sujeito está inundado de saudades, pensei, enquanto lutava para respirar, temendo, agora, pela vida dos meus sentimentos.

Vi a infinitude do sentimento do estranho e seu eco na humanidade de todos nós: filhos que a distância engoliu, pais que se foram para o mar e não voltaram, mães que perderam-se no tempo, amigos cujas vozes não mais faziam eco em nosso corações. Vi a infinitude da humanidade de todos nós nos olhos de um homem sofrendo de saudades...

Por fim, de súbito, nosso contato visual foi interrompido por alguém que saía do café e passou entre nós. Como a uma tábua salva-vidas, segui a pessoa com os olhos enquanto se afastava, respirando o ar que antes me faltara.

Não ousei olhar para a mesa ao lado. Tomei a xícara entre as mãos, reparando que meus dedos tremiam levemente. Tomei um gole de café, esperando o tempo passar, enquanto tentava remendar minha concha de civilidade.

Lançando, afinal, um olhar furtivo para o lado, vi o homem olhar uma última vez para a foto para então guardá-la com cuidado na carteira. Não haveria mais contato visual entre nós, suspirei aliviado. O olhar do homem voltara ao horizonte, o sentimento agora guardado no bolso.

Ele secou os olhos, chamou o garçom, pagou a conta e se foi, caminhando lentamente pela praia, o corpo mostrando a mesma saudades que os olhos antes vertiam. Segui-o com o olhar até o perder de vista, ao longe.

Fiquei sentado ainda por um longo tempo, olhando o vazio da xícara de café e tentando agora entender meus próprios sentimentos.

Não consegui ver quem estava na foto. Isso foi um segredo que o estranho levou consigo.

Mas o estranho havia deixado algo de si comigo. Havia deixado saudades. Não as dele, mas as minhas próprias, que eu havia tentado esquecer com tanto empenho.

Isso foi há muito tempo, mas lembro-me como se fosse ontem.

Nunca descobri quem estava naquela foto, mas hoje eu sei quem estaria nela, se fosse eu aquele estranho e se ela estivesse em minhas mãos...

Instantâneo XXV

Tempo de se tornar homem das cavernas, de se unir a uma matilha de iguais, adentrar o inóspito e caçar o alimento para a prole e a fêmea. E nesse ritual ancestral se renova a psiquê masculina em seus arquétipos... fui pescar...

Instantâneo XXIV

O que verão estes olhos meus quando o tempo se encarregar de varrer de mim o presente que tenho nas mãos? Verão sorrisos? Verão lágrimas? Verão o mar ou as estrelas? Verão amor? ou solidão?

O fim decerto não verão, pois nele os olhos não mais vêem e dele não quero falar.
Quero falar dos presentes bobos e fugidios ali na frente, daqueles com sorvete na mão e arranhado na canela, ou dos solenes, com um guarda-chuva.

E então? O que verão estes olhos meus quando o tempo passar, nas asas do cata-vento?

Instantâneo XXIII

Quis rimar com saudades, mas o mau humor de te deixar é maior que minha vontade de escrever.

Instantâneo XXII

E, então, acumulava saudades na algibeira, pois não havia mais o que pudesse ser feito. E conforme ela enchia, ele a encostava no ouvido, saboreando os sons de felicidade que estavam logo à frente, na primeira esquina do tempo.

8 de junho de 2012

Fragmento Censurado IV

O filme tinha sido divertido, muito embora histórias de amor somente a lembrassem que fazia muito tempo que estava sozinha. Ainda assim, a história tinha sido boa, pensou sorrindo de leve enquanto saía lentamente da sala do cinema.
 Caminhou pelo corredor pensando em sua vida amorosa, a qual comparou com uma estrada deserta: um posto de gasolina a cada trezentos quilômetros. Um abastecimento apenas quando o tanque já estava na reserva... por anos. Esse não era um sentimento bom. Olhou com tristeza para os casais que saíam do filme sorridentes e trocando olhares e carinhos, seu sorriso murchando e o coração apertando.
"Droga." resmungou baixinho, enquanto apertava o passo para sair logo do cinema. "Quem sabe um chocolate resolve isso?", mas já tinha passado pela loja de doces na ânsia de sair logo dali. "É uma droga mesmo..." suspirou, decidindo não voltar. Caminhou para a porta de entrada decidida a sair.
Fazia frio na rua, um vento cortante soprando na noite. Fechando bem a gola do sobretudo, dobrou à direita e tomou rumo de casa. O vento e o frio combinavam com seu estado de espírito, fazendo-a tremer.
A vida era mesmo engraçada. Para todas as suas amigas, quando elas pararam de procurar o companheiro ideal, ele simplesmente caía do céu, como se algo conspirasse para fazê-las felizes. No caso dela, quando ela parou de procurar, simplesmente não apareceu mais ninguém. A vida caçoando de sua infelicidade, pensou, fungando de frio.
Virou a esquina e, com um olhar distraído, reparou no vendedor de doces encostado na parede. "O que diabos faz esse homem vendendo doces a essa hora da noite nesse frio?!" resmungou surpresa. Reparou no sobretudo poído e nos olhos cobertos por óculos escuros. "Cego!" falou baixinho, diminuindo o passo. Lembrou da vontade de comer doces. Sim, era sua chance.
- Boa noite! - falou se aproximando.
- Boa noite moça... - disse com uma voz profunda, o rosto sem expressão.
- O que você tem de bom? - perguntou observando a bandeja cheia de pequenas embalagens. Não conhecia nenhuma delas.
- O que a moça deseja?
- Queria um chocolate... gostoso. - fungou, pensando no filme.
- Hmm... não tenho desses - respondeu devagar. - Eu vendo outras coisas,
- Não?! O que o senhor vende? - perguntou preocupada, pensando em drogas. Olhou para os lados assustada.
- Depende do que a moça quer... - respondeu lentamente.
- O senhor não vende drogas né? Eu queria muuuito um chocolate... - falou alto, aflita - Queria muuuito um companheiro... - resmungou baixinho, cansada.
- Ahhh! A moça quer um companheiro! - disse abrindo um sorriso, ignorando a pergunta sobre drogas.
Aquilo foi estranho. Decididamente estranho. Estranho por estranho, a pergunta saiu antes que ela pudesse evitar:
- Que tipos de companheiros o senhor tem aí pra vender? - disse com um meio sorriso.
Ele passou a mão em cima das embalagens, tocando-as de leve, como se pudesse sentir as diferentes cores. O sorriso ficou maior, enquanto ele dizia:
- Vários tipos moça. Grandes amores, pequenos amores, amigos, pra toda vida, por pouco tempo... tenho de tudo.
O vendedor definitivamente era louco... mas a vontade de comer chocolate estava crescendo. Com certeza ele tinha chocolates ali; com certeza era a vida caçoando novamente dela, numa noite escura e fria. Correu os olhos pela bandeja, observando as diversas embalagens: brancas, vermelhas, grandes e pequenas. Nenhuma delas lhe despertou a curiosidade. Nisso reparou em uma embalagem negra, no canto superior da bandeja: brilhante, sedosa, comprida, misteriosa. Devia ter alguma coisa saborosa ali dentro.
- Quero aquela ali. - disse apontando para a embalagem misteriosa. "O sujeito é cego, sua idiota!" - Desculpe, quero aquela preta ali do canto... - falou embaraçada.
O sorriso se fechou. O vendedor ficou parado, como se a estivesse observando, analisando sua compleição física, seu cabelo, seu rosto... Bobagem, pensou, o sujeito é cego.
- Quanto é? Quero levá-la.
- A moça tem certeza? Quem sabe ela leva um companheiro carinhoso? - apontando para uma embalagem amarelada.
- Não, quero aquela ali mesmo. - falou, cansada e irritada.
- Um companheiro para a vida toda? - disse apontando para uma embalagem vermelha.
- Não moço! Quero aquela ali mesmo... a preta do canto.
- A moça tem certeza? - perguntou com um ar estranho.
- Claro que sim! O senhor vai me vender ou não? Estou com frio e quero comer isso. - bufou.
- Certo, certo... - Falou lentamente, enquanto pegava a embalagem com cuidado.
- Quanto é?
- Não é nada não... pode ficar com ela de graça. - falou como se tivesse tomado uma decisão.
- Nem pensar... tome. - estendeu a mão com uma nota.
- Obrigado moça, não precisava - disse o vendedor pegou o dinheiro.
- Não por isso. - Disse pegando a embalagem e colocando no bolso. Virou-se e recomeçou a caminhar.
- Moça! - disse ele alto, fazendo-a parar e virar - Eu vendo fantasias moça, além de companheiros. A moça comprou uma fantasia... fantasias podem virar companheiros, mas não é sempre. A fantasia que a moça comprou pode ser bem estranha... aconselho a moça a comer isso com cuidado! - falou sorrindo.
- Humpf! - bufou ela voltando a caminhar, os olhos tristes perdidos na noite. - Vendedor maluco!
O vendedor acompanhou-a com os olhos cegos, o sorriso se transformando numa risada baixa e profunda. - Se prepare... você está precisando dessa fantasia, moça. - disse baixinho.

19 de maio de 2012

Fragmento Censurado III

De pé, ao lado da cama, observou-a deitada, dormindo tranquilamente. O sol ainda não havia nascido, mas ainda assim era possível vê-la na penumbra que se dissipava. O rosto encoberto pelo cabelo jogado e afundado no travesseiro macio; os ombros nus à vista por cima do lençóis, o qual cobria o resto do corpo, as curvas, os seios, o quadril arredondado, as longas pernas... por fim um dos pés aparecia, delicado, belo, inconsciente do olhar que o apreciava.

De pé, ao lado da cama, com os pés afastados, as mãos dentro dos bolsos do roupão, ele admirava a mulher descansando. Admirava e imaginava...

Junto do pé aparecia uma pequena porção da corda de seda, grossa, trançada e vermelha; ela estava envolvendo os tornozelos até a metade das canelas, numa amarra elegante e estética, mantendo as pernas presas juntas. Os braços não apareciam porque estavam amarrados para trás, com o mesmo trançado, mantidos imóveis, tensionados, e projetando os seios para frente, um deles se insinuando por baixo do lençol como um pequeno monte. Por debaixo dos cabelos, os olhos vendados, a boca amordaçada, o rosto afundado no travesseiro na mesma posição que ele a havia deixado algumas horas antes. Ela estava dormindo exausta depois de algumas horas...

Sentindo a respiração alterar, piscou e desviou o olhar para o sol que despontava no horizonte.

Nascia dentro dele alguém que gostava de controlar, pensou com um meio sorriso.

Olhou novamente para a mulher descansando na cama, relaxada. Tirou o roupão, levantou o lençol, admirando as curvas por alguns segundos, e deitou ao seu lado. Ela suspirou, ainda adormecida, se espreguiçou com languidez, relaxou e enrroscou as pernas livres nas dele.

Abraçando-a com gentileza, murmurou baixinho:

- Me aguarde...

20 de abril de 2012

Trama

- Foi bom. - disse ele sorrindo.
- Estava bom... - disse ela, deitando a cabeça no ombro dele.
- Não. Foi bom.
- Não estava?
- Não... foi.
- Por quê?
- Porque foi... senão ainda estaria sendo, só que no passado.
- Mas... os dois não acabam do mesmo jeito? - perguntou ela baixinho.
...
...
- Cale-se! - disse ele sorrindo.
- Apelão... vai sair caro isso pra você! - disse ela sorrindo e enroscando a perna sobre a dele...

Ahh, a trama dos tempos e dos corpos.

19 de abril de 2012

Ciclo

Ele observou distraidamente a mão tremendo, enquanto segurava o garfo. "Deve ser a idade.", pensou sorrindo. "Qual era sua idade mesmo?" Franziu o cenho, tentando precisar o valor. Não lembrava direito. De uns tempos pra cá estava ficando cada vez mais difícil de lembrar as coisas, e nem o tamanho desses tempos ele lembrava direito.

O mundo havia se transformado numa névoa. A vida agora era como subir numa montanha muito alta: ficava cada vez mais difícil respirar e de vez em quando fazia muito frio; havia nuvens e neblina para todos os lados e não se sabia nem qual era a paisagem em volta; tinha-se uma lembrança e uma saudade vívida do vale: seus encantos, sua fartura e sua beleza; era muito solitário... os amigos haviam se perdido na neblina.

Mas o coração ainda batia e os olhos ainda viam assim assim. Tanto viam que ele observava curioso o balançar da sua mão segurando o garfo.

- Coma querido. A comida vai esfriar! - Disse a moça junto ao seu ouvido com um olhar terno, mas atento e forte. Ela era muito bonita, pensou ele. "Ahh se eu fosse mais jovem!" sorriu ele de leve. Ela lhe lembrava alguém, mas ele não tinha certeza de quem exatamente. Curioso! Quem seria?...

O balançar da sua mão, segurando o garfo, novamente lhe capturou o olhar. Essa sensação de solidão era tão esquisita. "Eu não sou tão velho assim pra ter perdido todos os meus amigos!" pensou se olhando no espelho do outro lado da sala. "Dá a impressão que sou o único ser vivo na face da terra." O espelho mostrava uma face enrugada; cabelos grisalhos, mais para brancos que para pretos; olhos claros e vivos; alguém na faixa dos 60 anos. O espelho sorriu de volta, mostrando dentes brancos. "Nossa, ele tem todos os dentes." e o reflexo sorriu ainda mais.

- Onde foi parar todo mundo? - perguntou alto.

- Está todo mundo aqui, papai! - respondeu a moça sentada ao seu lado, abrindo um sorriso leve, mas com o mesmo olhar atento. - Coma que a comida vai esfriar!

"Papai?!", ele olhou para ela meio surpreso. "Bem, até que fazia sentido, ela era parecida com ele." observou comparando a face do espelho com a da moça ao seu lado. "Isso! Ela é parecida com a imagem do espelho!". Engraçado, ele não lembrava direito de ter tido uma filha.

- Está todo mundo aqui? Mas eu me sinto tão sozinho.

- Você não está sozinho, papai, garanto pra você. - respondeu a moça.

Bem, ela podia garantir, mas isso não diminuía aquela solidão esquisita que ele sentia por dentro. Não sabia dizer quando ela havia começado, mas estava ali com certeza. "Sim, ele se sente bastante solitário." pensou olhando a imagem no espelho, os olhos perdendo a vida e o sorriso murchando.

- Coma querido. A comida vai esfriar! - Disse a moça sentada ao seu lado.

Ele piscou os olhos e observou distraidamente a mão tremendo, enquanto segurava o garfo. "Deve ser a idade.", pensou abrindo o sorriso. "Qual era sua idade mesmo?"...

18 de abril de 2012

Fragmento Censurado II

Ela estava na fila do caixa; suada e descabelada; segurando uma cesta com pão, queijo e mais outras coisas que ele não sabia dizer. Parecia suja. "Como as pessoas vem sujas no supermercado desse jeito?" pensou ele observando-a com certo asco. Mas ali estava ela, parada, esperando a sua vez de ser atendida.

A fila andou mais um pouco e ela se moveu junto, mudando a posição do quadril. Agora ele também podia ver as pernas, antes escondidas pela saia da senhora da frente, uma velha grisalha e ensacada dentro de um vestido escuro de cor indeterminada. Ele esticou o pescoço. As pernas eram longas e ela estava vestindo apenas uma bermuda curta; dava para ver até os pés agora, calçados em chinelos baratos. - Bem, o conjunto até que não é desagradável - pensou ele enquanto passava os olhos nos outros caixas e constatava a tranquilidade monótona dos clientes sendo atendidos.

- Tudo tranquilo - voltou a atenção para ela; usava uma blusa abotoada à frente, branca, com pequenos detalhes que deveria ter algum nome que ele desconhecia. O que ele sabia é que debaixo da blusa estava um par de peitos. Ele sorriu com sua perspicácia. - Um par de peitos gostosos... - pensou aguçando a vista e vendo que a blusa estava meio esticada pelo volume abaixo.

A fila andou mais, ela seria a próxima a ser atendida. A velha ficou de novo na frente das pernas da moça.  - Bosta! - Ele olhou para o rosto dela, traços finos, delicados, que não combinavam com seu estado. O cabelo amassado e confuso caia na altura dos ombros, misturando-se com a blusa. Os olhos tinham uma aparência cansada e estava mordendo um lábio enquanto esperava.

Ele olhou impaciente para o relógio da parede; quase meio dia. Passou os olhos nos caixas rapidamente e voltou a olhar a moça. Sua altura era boa... ideal pra ser sincero; ficou imaginando ela nua e se divertindo com a ideia e com a moça. - Nossa, isso me dá até sede - tartamudeou consigo enquanto piscava os olhos e pensava com força numa lata de cerveja gelada, tentando mudar o rumo da conversa interna da moça sujona para a cerveja.

- Pronto, a velha foi embora! - resmungou, vendo a moça agora completamente. - Puta, que bunda! Ave Maria! - grunhiu, apreciando toscamente o corpo da moça e sentindo o incômodo tomar conta do seu. Mudou de posição para disfarçar e continuou a observar, enquanto ela tirava as coisas da cesta e colocava no caixa. "Cacete! Que calor..." pensou, agora definitivamente incomodado com a ereção e as ideias que lhe passavam pela cabeça; sentindo a gota de suor escorrer pelo lado do rosto.

A moça terminou de colocar as coisas nas sacolas e enfiou a mão no bolso da bunda para retirar o dinheiro. "Safada! Cachorra safada!" pensou ele com um sorriso contido. - Não podia ter colocado a grana no bolso da frente não? Miserável... - Ela recebeu o troco do caixa, guardando no bolso traseiro novamente, pegou as sacolas e virou-se, encarando-o diretamente nos olhos.

Ele sentiu a respiração parar com o susto e rapidamente desviou o olhar; virou de lado para os outros caixas e colocou as mãos na frente da calça, para disfarçar. Sentia que a moça caminhava em sua direção... - Obviamente, sua besta! - falou pra si mesmo. As pessoas passam por vigias em portas de supermercados. "Porra de cabeça suja a minha... caralho, coitada da moça deve estar ralando em algum lugar e eu aqui comendo ela dentro da cabeça." pensou ele com vergonha. - Deus me livre e guarde! - falou baixinho.

Viu com o canto dos olhos a moça se aproximando com um sorriso leve nos lábios. "Aí seu idiota... olha o mico! A moça sacou tudo..." pensou chateado. Olhou-a rapidamente, mudou a posição das mãos na frente da calça, levou uma delas ao quepe e a cumprimentou - Tenha um bom dia, senhora!" - como haviam ensinado no curso; desviou o olhar, sem graça, e continuou a olhar os caixas à distância, não vendo o sorriso da moça aumentar. "Coitada... seu idiota!" pensou uma última vez, desviando os olhos, esquecendo a moça inocente e focando o pensamento na monotonia dos caixas à distância.

...

A moça se virou e caminhou em direção à porta do supermercado. Viu de relance o estilo do olhar do vigia e como ele se virou de lado rapidamente. Abriu um leve sorriso... "Ahh homens! Mas não tenho tempo pra pensar em você agora moço." disse ela para consigo, sentindo os tornozelos ardendo de leve.

Passou pelo vigia rapidamente e ouviu o bom dia distraída. Estava com pressa agora. "Meu homem só largou de mim e me desamarrou da mesa porque estava com fome..." suspirou ela, abrindo um sorriso feliz. Piscou os olhos rapidamente por causa do sol na saída e segurou as compras com força, antecipando excitada o que a aguardava quando chegasse em casa. - Ai! Ai! - disse baixinho, pondo-se a caminhar...

12 de abril de 2012

Fragmento Censurado I

Antes de abrir os olhos ele já estava acordado. Acordado e pensando na vida, de olhos bem fechados.

E mesmo com os olhos fechados ele podia ver a marca do tapa, do beijo e do gozo. Podia sentir a devassidão da noite no corpo daquela mulher, jogada na cama ao seu lado. Devassidão daquelas que ele somente havia pensado em vagabundas, putas assanhadas e canalhas da pior espécie; coisas impuras e medonhas; coisas proibidas e desejadas...

Mesmo de olhos fechados, podia ver a si mesmo com um sorriso de canto de lábio. O sorriso fácil de quem fez algo errado dar certo naquela pilantragem escondida, que toda criança apronta aqui e ali. "Vagabundo...", pensou sorrindo, agora abertamente, e lembrando com mais clareza da robustez de peitos, da maciez de bundas e do assanhamento de mãos.

Abriu lentamente os olhos, fixando a vista embaçada no tampo da cômoda, que ainda marcava a noite empunhando as taças sujas de vinho, borradas de dedos e batom. A garrafa vazia, ao lado, era a prova da vadiagem: tombada, vazia, meio derramada, meio consumida, usada até o fim e deixada de lado.

Suspirou, passando a mão nos olhos. "Ai, que vida!", pensou. Espreguiçou o corpo na cama de lençóis sujos e amassados.

Podia sentir a mulher ali, ao seu lado, na cama. Sabia que estava nua, assim como ele. Nenhum dos dois teve condições de se vestir quando a noite finalmente acabou. Girou a cabeça e olhou para o corpo dela.

Estava de costas para ele; meio enroscada no lençol, as costas de fora e parte da bunda aparecendo, as pernas longas escondidas; os cabelos desgrenhados,  jogados por cima do travesseiro e do rosto; a pele marcada, suada e suja de vinho e de corpo.

O sorriso aumentou ainda mais, apesar do cansaço. "Gostosa! Como pode você e uma noite como a de ontem?!" pensou, sentindo os olhos pesarem novamente.

Observou-a por alguns instantes, enquanto ela respirava profunda e calmamente, mergulhada num sono sem memória, ou culpa.

- Mulher! - falou alto cutucando a bunda exposta.

O corpo estremeceu levemente ao contato súbito, mas sem sair do mundo dos sonhos.

- Mulher! - falou mais uma vez alto, batendo de forma tosca com a mão na bunda imóvel.

- Humm?! - resmungou ela, meio bêbada, meio usada.

- Amo você, porra... - falou ele, ainda sorrindo, mas relaxando o corpo, os olhos fechando, escorregando para o esquecimento da vadiagem; a mão agora encostada nas costas dela, esquecida.

Ele não viu, mas ela abriu um sorriso, escondido entre os cabelos e o travesseiro...

Instantâneo XXI*

Algumas vezes, e apenas algumas vezes, a alma clama, a gente decide e depois sobrevive.


*Esse estava perdido no blog fa um tempo, mas achei ele divertido, então decidi postar ao invés de deletar.

Pedido

No embate de minhas partes reside o rasgar-me em pedaços, o amar sem limites e o sofrer até o fundo... e na intensidade disso tudo reside meu viver, meu bem viver, minha ventura, minha candura...

E pobre daqueles que, ao meu lado amando, sobrevivem ao choque das minhas almas, às lágrimas de meus amores, aos silêncios de minhas iras, ao meu desatino, enfim.

A esses um pedido de desculpas pelo meu viver; pois enquanto insano é belo e enquanto belo é o que se vê.

A ideia que habito...

A ideia que habito nesse instante me transgride o corpo e a mente; me estica, me machuca, me comove e me enlouquece no prazer. E como poderia ser diferente? Se assim não fosse, não valeria a pena...

Instantâneo XX

A jornada que você faz pra conhecer seu interior somente a você pertence, bem como o que você decide mostrar dela para quem quer que seja.

Lembre-se: na sua vida interior somente entram convidados.

7 de abril de 2012

Instantâneo XIX

Na semântica amor não é dor; e se for, está na hora de você deixar de ser um eco e virar um nome próprio.

3 de abril de 2012

Instantâneo XVIII

Todo têm flutuações de humor... mas mantenha seu humor flutuando, pois se ele afundar vai levar você junto.

Instantâneo XVII

E num sem mais, no embalo dos grilos e no ressonar dos filhotes, me despeço desse cursor incerto, indeciso e irritante, para o qual um <ENTER> é o ato que o transmuta numa ideia, ignóbil ou brilhante, como olhos alheios o dirão...

Instantâneo XVI

A vida nos impõe saudades; você já viu voluntário pra isso? E nesse nó a gente se testa, se equilibra e se entende.

Ainda assim, segue o olhar mirando o horizonte...

Instantâneo XV

Aos sentimentos deve ser dado zelo na mesma medida que ao solo é dado o arado e as sementes, na promessa da chuva que virá; e virá.

Instantâneo XIV

Cada novo relacionamento possui novas regras: essa é a regra; todo o mais é diferente...
...erra, pois, aquele que tenta, ainda que desesperadamente, aplicar regras antigas a novos relacionamentos... essa pessoa perde uma grande oportunidade de se descobrir no universo do novo sentimento.

25 de março de 2012

Espresso

"Espresso" diz a placa de café em cima da minha mesa de jantar... e na amnésia literária causada pela falta que você me faz, essa palavra fica martelando nos meus olhos enquanto lembro de você saboreando café... seus labios tocando delicadamente a xícara, enquanto mantinha os olhos fechados...

"Espresso" é a vontade de desfazer minha saudade em você.

"Espresso" é o fim do texto, que com pouco já expressou tudo.

19 de março de 2012

Escritor, cursor, castor... estupor

O escritor sentou em frente à tela do notebook pensando "HA! É hoje!"

Entenda você que "hoje" na realidade deve ser lido como "agora", no sentido amplo daquela coragem difusa e enevoada de que são acometidos os escritores quando se sentam para fazer algo da vida. É igual àquele grito de guerra que faziam as tribos de outrora na hora de se lançar atabalhoadamente de encontro às lanças do inimigo, geralmente perdendo a vida ou um membro no processo. É o frágil ser humano, aturdido por alguma droga cafeinada, desafiando os deuses do caos, da falta de memória e, evidentemente, da falta de talento. O "HA" deve ser entendido como "HA" mesmo.

O escritor respirou fundo e preparou-se para começar a digitar... as ideias estavam na ponta dos dedos e bastava iniciar. Colocou os dedos acima do teclado e fechou os olhos, pensando-se um virtuoso e pensando no encadeamento mágico que o tornaria vitorioso em sua batalha épica. "Sim!", pensou sorrindo. Elevou o anular direito preparando-se para iniciar a frase, com um "O", e viu, com um encantemento quase extático, o dedo descendo em direção à primeira tecla...

"PAAAAAAIII.... paiêêêê!!!"

Congelando o movimento do dedo no meio do ar, o escritor sentiu aquele chamado estridente e primal como um atentado aos seus poderes criativos e sua capacidade imensurável de articular palavr...

"PAAAAAIII... acabei! Me limpa?"

Estupor.

17 de março de 2012

O afã na lonjura

Do calor do teu corpo me sorriem os lábios num estreitar de braços e pernas e num tocar de línguas e dentes; da carícia da tua boca me arrepiam as costas e as nádegas nuas, agora arranhadas e marcadas pelos teus carinhos e desatinos; dos teus cabelos no meu peito sobem os gemidos de ter teu peso em pelo sobre meu corpo inteiro; e no escuro, nos meus olhos, de pupilas grandes, a história se escreve simples: hoje te amaria muito...

14 de março de 2012

Instantâneo XIII

Quem disse que escrever é uma experiência sublime? Escrever pode ser sua alma batida num liquidificador; pode ser o ato mais solitário de sua vida, pois nem as palavras ficarão para ver o que restou de você...

Meu pé de limão*

Eu sempre quis ter um pé de limão na minha casa. A fruta me apraz, a cor me alegra... gosto da planta. Ter um limoeiro era uma forma de dizer que eu tinha raízes e, porque não dizer, frutos. Sim, ter o limoeiro na casa eram raízes e frutos, era ter um pedaço de terra no qual cavar um buraco e poder dizer: aqui está minha planta, aqui está minha casa.

Então um dia havia chegado o tão esperado momento: recém-casado com uma mulher que amava e dono de uma casa nova, saí para comprar limoeirozinho.

Fui no viveiro e escolhi um pequenino e frágil, mas era uma bela plantinha, com certeza daria conta do recado. Cheguei em casa com o fiapo de planta debaixo do braço e fui perscrutar o quintal em busca de um recanto tranquilo para o cidadão.... bem no fundo à esquerda parecia bom. Cavei o buraco com carinho e cuidado, adubei e chamei aquele lugar de "lar" do meu limoeiro.

As coisas andam para a frente e o tempo segue seu curso. Muitas coisas aconteceram desde que plantei o limoeiro naquele buraquinho. Problemas de vida, problemas do coração, um pouco menos de amor e um pouco mais de trabalho. Um tanto depois, com ele já mais crescido, sentei ao seu lado para conversar:

"Ó... eu sei que disse pra você que esse seria seu lar para sempre, mas eu preciso construir uma coisa aqui...", comecei, falando meio sem jeito. "Eu sei que havia prometido, mas não deu pra convencer a mulher a ser diferente. Ela disse pra eu arrancar você, mas eu disse que nem pensar... então, estou pensando no seguinte: quem sabe a gente muda você de lugar pra ali ó..." apontando para o lado direito do terreno encostado do muro. "Ali você vai ficar bem!", afirmei com a convicção de que tudo estava resolvido e tirando o peso do coração por machucar meu amigo

E assim foi feito. Agora ele não era mais somente uma plantinha. Era uma planta! Já batia no meu ombro e com certeza daria limões muito em breve. Deu certo trabalho pra mim e para o jardineiro, mas conseguimos tirá-lo do lugar onde estava e plantar no novo lar. Cuidei dele com afinco e, orgulhosamente, vi que suas folhas nem tinham murchado... ele foi valente e compreendeu sua importância. Perseverou, junto comigo, e suas raízes novamente buscaram a terra, assim como tentavam as minhas.

E lá ele ficou, enquanto a vida seguia. Seguia de modo automático, com aquela certeza amortecedora e lacônica. Seguia, diminuindo o amor. Sem ligar para meus problemas, o limoeiro cresceu e viscejou enquanto as chuvas caíram. Apesar da nuvem que agora aparecia no meu horizonte, olhava para meu limoeiro com felicidade, meu amigo verde.

Foi então que as folhas começaram a murchar e amarelar. Me lembro como se fosse ontem. Ao olhar para aqueles tons dourados no meu amigo, antes verde, meu coração espremeu e doeu. Meu limoeiro! Estava doente! Corri para perto e vi que a terra estava seca, que as chuvas tinham cessado, que ninguém cuidava dele enquanto eu estava fora. Água, água! ÁÁÁgua!! Dei de beber para meu tesouro, mas a água penetrava a terra e se perdia, se esvaía como se não existisse fundo, como se nada a segurasse a tempo do infeliz beber... me dei conta que o lar o estava matando de sede, que o lar o estava lentamente definhando.

"Ó..." comecei a conversa determinado, ignorando qualquer tentativa de discussão. "... nem pensar você morrer e me deixar aqui sozinho. Tá vendo ali ó..." falei apontando com o dedo para um espaço em frente à minha oficina, onde a grama vicejava. "É ali que você vai ficar, junto de mim e da minha oficina. Ali você vai ficar bem. Ali ficaremos bem, eu e você. Dali você nunca mais vai sair!"

E assim foi feito pela terceira vez... com força e um certo sacrifício, pois agora o limoeiro era uma planta grande, apesar de murcha. Mas o lugar escolhido foi perfeito. Eu podia vê-lo das duas janelas da minha oficina: pude vê-lo se recuperando e crescendo, pude ver suas folhas ficando novamente verdes, pude ver as primeiras flores e colher os primeiros limões, pude tomar a primeira limonada sentado à sua sombra, feliz, escorado em seu tronco. Eu e meu limoeiro lindo!

E a vida seguiu. Ao mesmo tempo que ele crescia e dava frutos, encolhia meu coração com o pesar de meu casamento, que começava a entrar em seu outono: mais sobrevida que vida, mais aparência que alimento para a alma.

Mas meu limoeiro continuava a me dar felicidade. A quantidade de flores era incrível, o cheiro, a cor, a textura. A quantidade de limões era incrível também: saborosos, grandes, cheios de suco, uma delícia cada um deles! Era como se ele dissesse para mim: "Que bom que você cuidou de mim... prestou atenção em mim, viu que eu estava tristonho e sempre arranjou um lugar novo pra eu ficar! Tome! Esse é meu presente para você." E os limões continuavam a crescer.

E foi assim que algo começou a acontecer, com ele e comigo. Com ele as folhas começaram a cair, enquanto as flores e os limões continuavam nascer e crescer, cada vez mais. Comigo as folhas começaram a cair, enquanto entrava no inverno de minha alma, o coração triste e solitário, esquecido de meu amigo. "Não me deixe! Fique comigo! Eu tenho raízes e frutos para nós dois!" dizia o limoeiro na linguagem das plantas.

Mas o tempo passou e as coisas pioraram: o esquecimento, a falta de cuidado, de atenção, de carinho. O tempo passou demasiado.

E um dia, sentado na escada que dava para o quintal, perdido em meio a pensamentos entristecidos e de despedidas, por fim me dei conta que meu amigo jazia solitário no quintal, perto da oficina onde com tanto carinho o havia plantado anos antes.

...

Por entre as brumas de meus sentimentos, vi seus galhos, altos e nus, antes majestosos, com umas poucas flores e limões restantes. Vi que meu amigo, antes lindo e cheio de vida, era agora um espelho de meu coração. Levantei e lentamente fui me sentar ao seu lado. Encostei a mão em seu tronco, sentindo a casca ressequida, seu corpo agora quase que inteiramente despido de vida.

"Você sabe que eu vou partir, não é?" falei baixinho. "Eu sei que a decisão é sua, mas porque você não fica? Porque você não fica aqui cuidando da minha oficina e a gente se encontra de vez em quando?" perguntei num sussurro, acariciando um pequeno botão de flor murcho em um galho.

E a vida segue a despeito das despedidas e separações. A despeito dos desencontros que criamos e nutrimos, ou desnutrimos. E a despeito a vida seguiu, apesar das despedidas e de minha separação, apesar de ter que deixar aquilo que considerei como sendo um dia meu. Meu pedaço de chão e meu limoeiro. Minhas raízes e meus frutos.

Pouco tempo depois soube que meu querido amigo verde tinha morrido. Tinha morrido como morrem alguns relacionamentos: sozinho no quintal, observando o tempo passar e sentindo a vida lentamente deixar de fluir. Morreu dando frutos e flores, num ato heróico de se reinventar. Morreu de tanto se doar.

Amei essa pequena planta. Minhas raízes e meus frutos. Meu pé de limão...

* Isso não é uma ficção: nem o limoeiro, nem eu e nem os diálogos, os meus pelo menos. A história de fato aconteceu como narrada.

Instantâneo XIIb

... é quando seu coração passou a viver de realidades e seu corpo a viver de promessas, e não o contrário, que você se dá conta que virou na esquina para o lado certo...

13 de março de 2012

O escritor e as formigas.

Disseram que escrever é fácil, que é só pensar e escrever. Bem, talvez fácil não seja a palavra, mas pelo menos é barato: está ali o teclado olhando pra mim, enquanto penso nas palavras que quero escrever. Não precisa de mais nada, a não ser o batucar suave dos dedos nas teclas.

Todo texto precisa de um tema, de preferência bem legal e motivador, sabe? Daqueles que prende o leitor e faz você se sentir bacanão. Mas o tema me foge...

As formigas fizeram novamente um trilheiro em cima da mesa. Não acredito! Eu limpei a mesa depois do café... Saco! Não entendo isso. Olha! Olha isso! Elas se dão ao trabalho de subir pelo pé da mesa, contornar a borda do tampo, chegar à parte superior, ir juntinhas até o centro e se espalharem para todos os lados procurando comida. Tem duas delas em cima do notebook: uma na tela e outra no teclado!

“Filha... NÃO tem comida no meu notebook!” pensei enquanto assoprava as formigas para longe.

Onde eu estava mesmo? Ahh... sim, no tema. Então...

Um tema bom, tem que ser um tema bom. Batalhas, mulheres, fogo e heroísmo? Dores, compulsões, fome e desgraça? Amores indizíveis, paixões, aventuras e devaneios? O Cotidiano? Deve haver algo de bom para se aproveitar no meio dessa confusão, não?... Com um lampejo, um sorriso e uma ideia voltei a olhar a tela e iniciei a fila de palavras que seguiam o pequeno cursor piscante do editor de textos...

A fila minúscula se moveu no canto de meu olhar, em cima do tampo da mesa. Não é possível! Piscando nervosamente os olhos voltei a me concentrar nas palavras escritas na tela e digitei rapidamente para não perder a ideia. Vai, vai, vai!... Riscos, perninhas, antenas, tampos de mesas, comida espalhada: trilheiros de formigas. Olhei nervosamente para aquilo se movendo em volta do notebook e senti como se estivesse se movendo dentro da minha cabeça! Tem uma delas em cima do meu braço!

Fechei os olhos com força e pensei na injustiça da situação, tentando esquecer aquilo tudo... mas senti a formiguinha caminhando no meu braço. Senti suas patinhas perambulando na minha pele e, de forma irresistível, imaginei como seria se centenas delas subissem pela mão, congelada em cima do teclado. Senti a força criativa me abandonando...

Deu pra imaginar direitinho: aquela linha de formigas, subindo pela mão esquerda, milhares de patinhas a caminhar, braço acima em direção ao ombro. Uma linha contínua, daquelas que fariam um escritor sentir inveja, tal a coesão de ideias, a força do movimento e harmonia de comunicação. Deu pra senti-las subindo pelo pescoço e entrando em meu ouvido esquerdo, marchando ordenadamente, atraídas pelo cheiro e sabor de palavras errantes e vistosas no interior de minha cabeça. Deu pra vê-las saindo pelo ouvido direito, cada uma delas, minúscula e cor de areia, carregando uma pequena letra: um P aqui, um A ali e um C acolá. Uma linha de formigas felizes. Por fim, lá se foi a linha de formigas embora, descendo pelo braço direito para a mesa, carregando letras, palavras, frases e parágrafos inteiros, na direção do formigueiro escondido no buraco da parede... elas alimentadas e eu vazio.

Esbugalhei os olhos, a respiração acelerada e a testa coberta de suor, como quem acorda de um pesadelo monstruoso. A única formiguinha continuava ali, andando no meu braço sem saber o terror que agora me afligia. Chocalhei o braço com força, fazendo o inseto repugnante voar para longe, num gesto de asco e desespero.

Ainda tinha os olhos úmidos de tensão e as mãos trêmulas quando voltei a fitar a tela do notebook, agora vazia, com um cursor piscando, como que numa interrogação intermitente...

"Onde eu estava mesmo? Eu tinha escrito alguma coisa antes!" pensei aturdido, ainda sentindo o eco dos minúsculos passos imaginários reverberarem na cabeça...

"Onde eu estava mesmo?"

Silêncio...

Vazio...

Abri a boca... fechei a boca...

...

Pousei a cabeça no tampo da mesa... um escritor derrotado por um trilheiro de formigas.

12 de março de 2012

Instantâneo XIIa

Gostar de alguém é como chegar em uma enseada segura depois de um mar tormentoso. E quando você abraça, cessa o vento e as ondas acalmam.

Instantâneo XI

... mas, tenho certeza, saudade também será o que a eternidade terá a dizer do meu olhar tocando a tua boca e do teu suspiro se perdendo no meu.

Instantâneo X

Ela poderia estar ali, deitada lendo, enquanto eu digito isso e tomo meu café... é assim que a percepção da falta se faz presente nos pequenos detalhes do cotidiano.

Instantâneo IX

Nem sempre estou coerente ou semântico... algumas vezes é só mesmo a vontade de tic tic tic... e ver palavras surgindo do vazio. E a despeito da incoerência primeira, me pego pensando no sentido das coisas e das vontades...

Instantâneo VIII

Alheio às pirraças e travessuras, indiferente aos amores e saudades, insensível às dores e lágrimas, segue o tempo sua trajetória inflexível e indeterminada; no seu encalço a vida.

Instantâneo VII

Algumas vezes a gente entra voluntariamente em uma era glacial emocional: é questão de vida ou morte interna e vc prefere congelar.

Não há nada de errado nisso... mas lembre-se que vc precisará de um arqueólogo pra descobrir seu coração no futuro.... nos casos piores um paleontólogo.

Instantâneo VI

Uma vida inteira de felicidade não garante a felicidade do amanhã. A vida não segue as regras de nossas intenções.

E a tristeza de hoje não impede a felicidade do amanhã. A vida não segue as regras de nossas desesperanças.

A vida não segue regras.

A vida não é uma teoria.

Instantâneo V

Suspiro é um sorriso do corpo quando a mente está exasperada.

Instantâneo IV

A intensidade da alma humana não está no explícito, mas no implícito e no potencial. De grandes coisas é capaz um oceano calmo e profundo.

Instantâneo III

A vida é repleta de pequenas tragédias e ainda assim a alma humana prossegue remando em direção ao desconhecido; remando com decisão firme, abençoada pela crença de que o futuro tem rumo e nexo... abençoada pela ignorância.

Instantâneo II

De tal forma me foi dado alimento que palavras agora não fazem o mínimo sentido... resta apenas um suspiro de saciedade nos lábios de um esfarrapado, ébrio de sensações.

Instantâneo I

É num boa noite amorfo e sem significado que apago a luz, enquanto ao pensar em palavras me fogem as ideias...

14 de dezembro de 2011

"O futuro será bom"... todo ser humano precisa partir dessa premissa pra continuar vivendo sem alquebrar seu frágil espírito. O futuro será bom para mim... tenho que acreditar nisso, pois do contrário congelo no agora sem possibilidade de dar um passo sequer.

Então, o futuro será bom... estamos combinados? ;)

12 de dezembro de 2011

Se me fosse pedido para contar a minha história de trás para a frente, gostaria de começar dizendo a palavra "feliz".
Por exemplo:
Feliz parti, pois vivi quase tudo com o coração presente...
Feliz; pois amei, chorei, sorri, tive filhos, mulheres e amigos...
 Gostaria de ser digno de começar minha história com essa palavra. Significaria que permaneci íntegro para comigo, que posso me olhar no espelho agora e dizer com tranquilidade: estou indo bem.

15 de novembro de 2011

Debates...

Ao sentir dificuldade de se sentir aceito, acolhido e entendido, lembre-se que você ainda está debatendo consigo mesmo suas próprias qualidades e valores; geralmente quando você chega à conclusão de que você vale a pena, seus amigos já sabem disso faz um bom tempo.
Perde-se muito amor e carinho nesses debates internos...

3 de novembro de 2011

Ausência...


Solidão é ser ímpar em um mundo par... ainda pior, é ser ímpar ao lado de um par.

É quando seu coração pede para falar algo e quem está do lado já virou o rosto, voltando ao prosaico de alguma coisa que substituiu o sentimento, preso agora aos seus lábios, um arremedo, um suspiro silencioso.

O corpo que pede aconchego e acolhimento, receber a imobilidade neutra de um sono profundo ou a recusa tácita e inegociável do torpor de alma satisfeita com o vai e vem do dia e da noite.... isso é solidão.

É ver uma ideia nascer e deixá-la minguar, deixar o desabrochar perder-se... pois as palavras perderam a voz e o caminho.

É acostumar-se com o silêncio de mente, de corpo e de coração.

Solidão é ser ímpar... é quase a ausência de alma.

1 de novembro de 2011

Ajuntador...

Sabe, eu tenho certa inveja do escritor. Quando você acaba de ler algo bonito e consistente, fica aquela sensação de sorvete por dentro e uma curiosidade de saber como é que o sujeito conseguiu juntar aquelas palavras para transmistir aquela ideia e aquele sentimento... dá falta de ar.

E a ordem... ahhh, a ordem das palavras! Como é que eu nunca pensei naquilo! Pequenas mudanças aqui e ali; aquela que deveria ir lá, agora vai aqui e vice-versa... e no final, com essas perversões do coloquialismo, a coisa toda fica com um sabor diferente, uma cor dourada, um toque acetinado... sei lá! Dá até a impressão que, para acertar o coração humano, as palavras devem possuir uma ordem diferente daquela que eu e você usamos. É como se nossa forma de sentir fosse comum e a dele não.

Aí vem a tristeza para quem tenta repetir o feito.

As palavras estão por aí, é só escolher bem na hora de escrever, que tudo pode dar certo: em vez de dizer que o cara tava na fossa, é melhor dizer que sentia uma tristeza cortante pelo amor impossível. Vê? Não é impossível.

A segunda parte é ainda mais fácil: escreva reto e deixe torto depois... não dá pra ser mais simples que isso.

Mas as palavras e as ordens seguem as marés de minha alma e aí reside meu infortúnio. Não há palavra e ordem que me permitam escrever sobre a felicidade se meu espírito não sente isso, pelo contrário, sofre em silêncio e contemplação. E não há como extrair tristeza de um dia iluminado para se escrever sobre algum tormento perdido em algum lugar distante de onde estou agora.

Talvez aí resida a força e a arte do escritor: moldar o sentimento, ainda que por um pequeno momento, para escrever hoje como se fosse ontem, e repetir o feito novamente amanhã.

Pensando sobre isso, me vejo como um ajuntador de palavras, não importa quão belas, não importa sua ordem. Um ajuntador honesto, mas ainda assim um mero ajuntador...

31 de outubro de 2011

Início ou fim?

Algumas vezes, e somente algumas vezes na vida, as encruzilhadas são de tal ordem penosas que você reza para não sentir remorso pelo caminho que trilhou para ali chegar. Você começa a sopesar as consequências, a medir os conflitos, a tatear em direção ao futuro, na vã esperança de conseguir no amanhã um consolo para as decisões do hoje. E reza para não se arrepender de ser quem você é e o motivo pelo qual você agora está numa tal encruzilhada.

E na encruzilhada você se depara... geralmente é num local ermo e árido, sabe?, como que para enfatizar que a decisão será somente sua... me vem à mente aquelas cenas de faroeste, no inverno, no meio do deserto, onde só há o vento frio e a vegetação seca, num final de tarde meio nublado. Parece que nessas horas o Olimpo decide sua solidão, de modo que recompensas e derrotas sejam as lembranças de sua decisão.

São nessas encruzilhadas que nossa alma humana aflora com toda sua fragilidade... digo, para aqueles que possuem alma, sensibilidade e a visão clara que para um lado da encruzilhada algumas pessoas te esperam e no outro elas não existem....

Pera aí... existe visão clara numa encruzilhada? Alguém é capaz de pensar e sentir com clareza em tal lugar?

Numa encruzilhada dessas também se inicia essa experiência com palavras. Como se alinhá-las de forma ordenada, uma depois da outra, com um espaço entre elas, formando frases com sentido, início, meio e fim, terminando com algum tipo de ponto, pudesse criar a ilusão de que a solidão não existe, que o caos é uma ideia sem sentido e que há felicidade, não importa a direção que se escolha.

Nos vemos por aí...